Conheça o projeto de Ismael Paiva, que usa o taekwondo como ferramenta de inclusão para o desenvolvimento de crianças típicas e neurodivergentes.
31 de agosto de 20267 min de leitura
Quando uma criança neurodivergente chega a uma academia de esporte, não basta abrir a porta do tatame e dizer que ela está incluída. É preciso preparar o ambiente, compreender suas necessidades, respeitar seu tempo e construir, aos poucos, uma metodologia que realmente converse com aquela criança.
Foi diante dessa realidade que Ismael Paiva, professor de Taekwondo, especialista em ABA e Neuropsicomotricidade e aluno da Rhema Neuroeducação, decidiu transformar aquilo que vivia na prática em um projeto estruturado.
Ao perceber que não sabia como conduzir o atendimento do primeiro aluno neurodivergente que chegou à sua academia, ele foi buscar formação e criou o Taekwondo para Todos, uma proposta que usa o taekwondo como ferramenta de inclusão para estimular o desenvolvimento motor, sensorial e cognitivo de crianças típicas e atípicas.
A iniciativa atende hoje cerca de 60 crianças ativas, unindo a técnica marcial a recursos sensoriais e visuais, além de trabalhar disciplina, respeito, socialização e autonomia dentro e fora do tatame.
Vencedor do Prêmio Inclusão em Neuroeducação Brasil e convidado do bloco de entrevistas do Seminário de Inclusão e Neurodesenvolvimento, realizado em 29 de agosto pela Rhema Neuroeducação, Ismael compartilhou sua trajetória, explicou como nasceu o projeto e contou a história de José Kleber, um dos alunos que mais marcaram esse caminho.
Quem é o professor Ismael Paiva?
Antes do tatame, Ismael Paiva passou por profissões bem distantes do esporte. Ele foi técnico e mecânico industrial, cursou Gestão de Produção Industrial, serviu como militar da Marinha do Brasil na área de armamento de aviação e trabalhou como ferramenteiro na Jeep, desenvolvendo projetos de carros. O Taekwondo, no entanto, sempre esteve presente — ele pratica o esporte desde criança.
Rhema Neuroeducação: Qual é a sua primeira formação?
Ismael Paiva: Minha primeira formação é técnico e mecânico industrial. Depois eu fiz gestão de produção industrial, e depois eu fui militar da Marinha, armamento de aviação. Mas eu sempre treinava, fazia esporte desde pequeno, fazia Taekwondo desde pequeno. Então nunca deixei o Taekwondo de lado. Fui ferramenteiro também na Jeep, fazendo os projetos dos carros. Depois que eu comecei a primeira pós-graduação, aí eu saí da Jeep e fiquei só com a academia, só com o esporte.
Segundo Ismael, a mudança de carreira trouxe mais do que uma nova rotina de trabalho: "Essa mudança me trouxe qualidade de vida. Tenho mais tempo com meus filhos. Poder ajudar pessoas — trabalhava com máquina, agora trabalha com pessoas."
Como surgiu o projeto Taekwondo para Todos?
O projeto que hoje atende crianças neurodivergentes já existia antes de Ismael conhecer a Rhema Neuroeducação, mas não era voltado para crianças atípicas. A virada aconteceu quando chegou à academia o primeiro aluno neurodivergente.
Rhema Neuroeducação: Como surgiu o projeto? Ele veio antes ou depois de você conhecer a Rhema?
Ismael Paiva: O projeto já existia antes de eu fazer os cursos, só que não atendia crianças atípicas. Chegou um primeiro aluno neurodivergente para treinar com a gente e eu não sabia o que fazer. Aí me indicaram esses cursos da Rhema, que tinha dia de quinta e sábado. Eu fazia tudo que aparecia. Comecei a aplicar algumas coisas com a criança.
Ela chegou para a gente com um laudo de suporte 3, não verbal. Só que, com o treinamento e as aplicações, ela começou a balbuciar algumas palavras, falar algumas coisas. Eu pedi para fazer uma reinvestigação da criança, e hoje ela não é mais suporte 3, é suporte 2. Ela fala, conversa dentro do assunto que está se falando. A parte motora melhorou muito também.
Foi nesse contexto que Ismael resume o que mudou em sua prática: "Antes era tudo empírico. Fazia o que achava que era certo. Não tinha uma base."
Como os cursos e a pós-graduação da Rhema mudaram a prática de Ismael?
A formação continuada foi o que deu consistência científica ao projeto. Ismael conta que fez mais de 50 cursos de curta duração antes de iniciar as pós-graduações, incorporando o que aprendia diretamente nos treinos.
Rhema Neuroeducação: O que você teve de conhecimento nos cursos e o que teve de conhecimento nas pós-graduações que te ajudou no projeto?
Ismael Paiva: O Taekwondo como ferramenta de inclusão não trabalha só a parte marcial, ele trabalha a parte sensorial, cognitiva e motora. Cada criança é de uma forma, não tem como aplicar a mesma metodologia para dez crianças — uma vai funcionar, com outra não.
Nesses cursos de curta duração, eu pegava tudo que era passado no finalzinho do curso, que sempre tinha uma prática. Eu gravava aquilo e fazia. Por exemplo, eu fazia tapete sensorial, painel ilustrativo com calculadora, com telefones antigos. No treinamento, eu colocava a parte técnica do Taekwondo e, no final, colocava o painel sensorial para a criança alcançar, através dos movimentos do esporte. Eu conectava uma coisa à outra.
Na pós-graduação isso ganhou corpo, porque eu comecei a ir mais fundo, a entender cada parte do cérebro, e estimulava através dos movimentos.
O caso de José Kleber: do primeiro contato à faixa preta
Entre as histórias que marcaram a trajetória de Ismael está a de José Kleber, o primeiro aluno neurodivergente que chegou à academia, no momento em que o professor ainda não sabia como conduzir o trabalho.
Rhema Neuroeducação: Você tem uma história de algum aluno específico que te marcou bastante?
Ismael Paiva: Tem, sim. O José Kleber. Ele vai se formar faixa preta agora, no final do ano. Foi esse primeiro aluno que entrou lá e eu não sabia nem por onde começar. E hoje ele vai se formar faixa preta. Está comigo até hoje, não parou de treinar. Faz outras atividades, mas continua com a gente.
Rhema Neuroeducação: Qual a idade dele e qual é a característica dele?
Ismael Paiva: Ele tem TEA, suporte 2, está com 14 anos agora. É adolescente, e é muito mais difícil de lidar com o autismo na adolescência.
Qual é a importância de unir esporte e inclusão?
Para Ismael, o esporte carrega um valor que vai além da técnica: disciplina e respeito, elementos que ele considera fundamentais tanto para o desenvolvimento infantil quanto para a inclusão.
Rhema Neuroeducação: Para você, qual é a importância de unir o esporte à inclusão?
Ismael Paiva: O esporte tem uma coisa que está meio esquecida e perdida na sociedade de hoje, que é a disciplina e o respeito. Eu acho que anda tudo junto: a educação, a disciplina e o respeito. A gente tem em casa disciplina e respeito, e conhecimento na escola. O esporte traz muito essa questão da disciplina e do respeito. Quando eu comecei, eu não era só projeto, era particular, e destinava parte das vagas para o projeto. Então, se cada professor fizer um pouquinho, ajuda muito. Infelizmente a gente vive num país que nem todo mundo tem condições de fazer só projetos.
Ismael reforça essa proposta com um exemplo prático: se cada academia disponibilizar dez, quinze ou vinte vagas para crianças com TDAH, TOD ou autismo, o impacto coletivo pode ser grande diante da fila de espera por atendimento especializado que existe mesmo em cidades pequenas.
O que mudou na carreira de Ismael depois do Prêmio Inclusão?
A participação como finalista do Prêmio Inclusão em Neuroeducação Brasil provocou uma mudança significativa na estrutura do projeto.
Rhema Neuroeducação: Como foi para você essa repercussão do prêmio? Deu um "up" na carreira?
Ismael Paiva: Com certeza deu um up. Para a senhora ter ideia: quando a gente entrou como finalista, eu atendia escolas municipais e tinha uma academia com trinta e seis alunos apenas, num espaço pequeno. Eu tive que triplicar o tamanho e mudar de prédio. A procura foi muito maior. Também surgiu uma aproximação com a Federação Pernambucana de Taekwondo, que está querendo estimular outros professores a atenderem mais crianças atípicas. Minha vida profissional não tem nem como comparar.
O que essa experiência ensina a outros profissionais?
A trajetória de Ismael reforça uma ideia central: não basta querer incluir, é preciso estar preparado para incluir. Como ele mesmo resume, "sem conhecimento, não anda. Primeiro conhecimento. O conhecimento é que faz você ter discernimento e definir qual caminho você vai seguir, para ter resultado."
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Cada criança é um mundo. Te preparamos para cada uma delas!