Muito além da escola: a missão de incluir pessoas autistas na igreja
Descubra como a inclusão de pessoas com autismo na igreja transforma famílias e fortalece o acolhimento por meio do conhecimento.
07 de agosto de 20266 min de leitura
Conheça a história da educadora que transformou um desafio em uma missão de acolhimento
Quando se fala em inclusão de pessoas com TEA, é comum que o pensamento esteja voltado para a escola. Mas e quando o culto começa? Quem acolhe essa criança? Quem orienta a família? Como a igreja pode se tornar um ambiente onde todos realmente encontrem um lugar para pertencer?
Essas perguntas mudaram completamente a trajetória de Samya Soares. Pedagoga, teóloga, neuropsicopedagoga, palestrante e escritora, ela transformou um desafio inesperado em um projeto que hoje capacita igrejas, forma voluntários, apoia famílias atípicas e mostra que a inclusão também faz parte da missão cristã.
Convidada da Jornada Incluir: AEE, PEI e Estudo de Caso, promovida pela Rhema Neuroeducação, Samya compartilhou como nasceu o projeto Inclusão de Autistas na Igreja, explicou por que o acolhimento vai muito além da boa vontade e mostrou que incluir significa preparar pessoas, adaptar ambientes e construir espaços onde cada indivíduo seja valorizado e participe ativamente da comunidade.
Assista ao vídeo abaixo e confira a entrevista completa.
Como surgiu o projeto de inclusão de pessoas autistas na igreja?
Toda grande transformação começa com uma pergunta. No caso de Samya Soares, ela surgiu de um desafio inesperado que mudou completamente sua forma de enxergar a inclusão.
Embora já atuasse há muitos anos na educação, formando professores e estudando o desenvolvimento humano, ela percebeu que havia um ambiente onde quase ninguém discutia o tema: a igreja. Foi em 2018 que essa realidade mudou para sempre.
Rhema Neuroeducação: Samya, como nasceu o projeto de inclusão de pessoas com TEA na igreja?
Samya Soares: Tudo começou quando uma mãe chegou à igreja com dois filhos autistas e disse uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça: "Tenho dois filhos autistas. Agora vocês se virem." Aquilo nos mostrou que não estávamos preparados. Nós queríamos acolher, mas percebemos que boa vontade não era suficiente. Precisávamos estudar, entender o autismo e aprender como incluir essas pessoas de verdade.
A partir daquele momento, Samya e toda a equipe iniciaram uma intensa busca por conhecimento. Participaram de cursos, realizaram formações e estudaram sobre o Transtorno do Espectro Autista para compreender como oferecer um acolhimento que realmente respeitasse as necessidades de cada pessoa.
No entanto, logo perceberam outro desafio: havia muitos materiais sobre inclusão na escola, mas quase nenhum voltado à realidade das igrejas. Foi essa lacuna que motivou a criação de um projeto que, anos depois, ultrapassaria os muros da comunidade local e passaria a inspirar igrejas em diferentes regiões do país.
Inclusão de pessoas autistas começa com conhecimento
Quando se fala em inclusão, muitas pessoas acreditam que basta abrir as portas e receber todos da mesma maneira. Para Samya, porém, incluir é muito mais do que isso.
A verdadeira inclusão exige preparo, conhecimento e disposição para compreender as necessidades de cada indivíduo. Afinal, ninguém consegue oferecer acolhimento de qualidade sem entender os desafios enfrentados pelas pessoas com TEA e suas famílias.
Foi justamente essa busca constante por conhecimento que também aproximou Samya da Rhema Neuroeducação.
Rhema Neuroeducação: Ao longo dessa trajetória, você investiu em diversas especializações. Como a formação contribuiu para fortalecer esse trabalho?
Samya Soares: Eu sempre acreditei que quem trabalha com pessoas precisa continuar estudando. Conheci a Rhema por meio de um link compartilhado em um grupo, comecei participando dos eventos e depois fiz Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia e Neuropsicomotricidade. Hoje continuo estudando Neurociências e Autismo porque entendo que sempre existe algo novo para aprender.
Esse conhecimento permitiu que o projeto fosse muito além do acolhimento inicial. Hoje, Samya capacita professores, líderes religiosos e equipes de diferentes instituições sobre inclusão, processamento sensorial, bullying, metodologias de ensino e outros temas fundamentais para quem deseja construir ambientes verdadeiramente inclusivos.
"A inclusão vai do estacionamento ao altar"
Entre todas as frases compartilhadas por Samya durante a entrevista, uma resume perfeitamente sua visão sobre inclusão. "A inclusão vai do estacionamento ao altar."
Mais do que uma expressão, essa frase representa a forma como o projeto é desenvolvido na prática.
Rhema Neuroeducação: O que significa dizer que a inclusão vai do estacionamento ao altar?
Samya Soares: Significa que toda a igreja precisa estar preparada. Não adianta apenas o professor da sala infantil conhecer o autismo. A recepção, o estacionamento, os líderes, os voluntários e toda a equipe precisam saber acolher essa família desde o momento em que ela chega até o fim da programação.
Por isso, cada pessoa envolvida no projeto recebe formação específica para compreender como agir diante das diferentes necessidades apresentadas pelas crianças e suas famílias.
Além disso, a igreja conta com salas sensoriais organizadas por faixa etária. Diferentemente do que muitos imaginam, esses espaços não existem para isolar a criança.
Seu objetivo é oferecer um ambiente de regulação emocional. Quando necessário, a criança utiliza a sala por alguns minutos, recupera o equilíbrio e retorna para participar normalmente das atividades junto aos demais colegas. A proposta é favorecer a participação, nunca promover a exclusão.
Quando a inclusão transforma vidas
Os resultados do projeto não são medidos apenas pelo número de pessoas atendidas, mas pelas histórias que foram transformadas ao longo dessa caminhada.
Cada criança que consegue permanecer mais tempo em uma atividade, cada família que volta a frequentar a igreja com tranquilidade e cada pessoa que encontra um espaço para desenvolver seus dons representa uma conquista construída com conhecimento, dedicação e acolhimento.
Rhema Neuroeducação: Qual foi uma das transformações mais marcantes que esse projeto proporcionou?
Samya Soares: São muitas histórias. Temos crianças que, no início, conseguiam permanecer apenas alguns minutos nas atividades e, hoje, participam de toda a programação. Também acompanhamos adolescentes e adultos que receberam o diagnóstico mais tarde e encontraram na igreja um lugar de acolhimento. Já vimos pessoas sendo batizadas, servindo em ministérios e descobrindo que também têm muito a oferecer à comunidade.
Outro aspecto que emociona Samya é o trabalho desenvolvido com as famílias.
Além do apoio emocional, o projeto oferece orientações sobre direitos, benefícios sociais, encaminhamentos profissionais e até iniciativas voltadas à geração de renda para mães atípicas. A proposta é fortalecer essas famílias para que encontrem não apenas acolhimento espiritual, mas também suporte para enfrentar os desafios do dia a dia.
Para ela, incluir significa olhar para a pessoa como um todo, compreendendo que cada família possui necessidades diferentes e merece ser acompanhada com respeito e dignidade.
Muito além da escola: uma missão de acolher pessoas e transformar realidades
A trajetória de Samya Soares mostra que a inclusão não deve acontecer apenas na escola. Ela também precisa estar presente na igreja, na comunidade e em todos os espaços onde as pessoas constroem relações e encontram oportunidades para participar da sociedade.
Se você deseja aprofundar seus conhecimentos sobre o Transtorno do Espectro Autista, compreender estratégias baseadas em evidências científicas e transformar sua atuação na educação, na clínica ou em outros espaços de inclusão, saiba tudo sobre a Pós-Graduação em Transtorno do Espectro Autista (TEA) da Rhema Neuroeducação.
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Cada criança é um mundo. Te preparamos para cada uma delas!