Rhema ao vivoJornada de Estratégias Inclusivas: TEA e ABA25 Ago

Artigo

A professora que transformou a inclusão na creche

Conheça o projeto de Elinéia Miranda, que promove inclusão, autonomia e acolhimento de crianças autistas desde a primeira infância.

Quando uma criança autista chega à creche, não basta abrir a porta e dizer que ela está incluída. É preciso preparar o ambiente, compreender suas necessidades, respeitar seu tempo e, principalmente, acolher também a família que chega muitas vezes cheia de dúvidas, medos e inseguranças.

Foi diante dessa realidade que Elinéia Miranda, professora, pedagoga, especialista em ABA e aluna da Rhema Neuroeducação, decidiu transformar aquilo que observava diariamente em uma proposta de trabalho. Ao perceber que muitas professoras ainda não tinham formação suficiente para acolher crianças autistas e suas famílias, ela criou o projeto “Autismo e Identidade: Acolhendo com Amor e Respeito”, desenvolvido em uma creche pública de Manaus.

A iniciativa busca trabalhar identidade, autonomia, participação e desenvolvimento desde os primeiros anos, envolvendo não apenas as crianças, mas também professoras, gestão e famílias. O projeto atende crianças autistas de 1 a 3 anos e utiliza atividades sensoriais, estratégias visuais, brincadeiras e outras experiências para respeitar diferentes formas de comunicação e interação.

Finalista do Prêmio Inclusão Neuroeducação Brasil 2025 e convidada do bloco de entrevistas da Jornada de Educação Especial Inclusiva na Escola, promovida pela Rhema Neuroeducação, Elinéia compartilhou sua trajetória, explicou como nasceu o projeto e contou histórias de crianças que encontraram na creche um espaço para se desenvolver, participar e pertencer.

Assista ao vídeo abaixo e confira a entrevista completa.

Como nasceu o projeto “Autismo e Identidade”?

Antes de criar o projeto, Elinéia já acompanhava de perto os desafios enfrentados por crianças neurodivergentes e seus professores. Quando a creche começou a receber um número maior de crianças autistas, ela percebeu que não bastava contar com a boa vontade da equipe: era necessário construir conhecimento e estratégias para que o acolhimento realmente acontecesse.

Rhema Neuroeducação: Como surgiu a ideia de criar o projeto?

Elinéia Miranda: Quando começamos a receber essas crianças, eu percebi que muitas colegas não tinham uma preparação adequada, uma formação que ajudasse a acolher e compreender essas famílias e essas crianças.

Eu via o sofrimento da criança e da família. Muitas mães estavam perdidas, principalmente quando era o primeiro filho e elas estavam se deparando com o TEA. Então pensei: “Eu preciso fazer alguma coisa”.

Porque não é só receber a criança. Você só receber a criança não significa que está fazendo inclusão. A inclusão acontece quando essa criança participa de todos os momentos e quando conseguimos trabalhar com ela as habilidades necessárias para a vida.

Por que começar o trabalho de inclusão ainda na creche?

Para Elinéia, os primeiros anos são uma etapa fundamental para oferecer experiências, oportunidades de interação e condições para que a criança desenvolva suas habilidades. Por isso, o projeto foi pensado especificamente para a primeira infância.

Rhema Neuroeducação: Por que é tão importante trabalhar com a criança autista desde a primeira infância?

Elinéia Miranda: Eu digo sempre que, quando a gente começa a trabalhar com a criança, esse olhar para as habilidades dela precisa acontecer desde o início, porque ali está tudo começando.

A Educação Infantil é a base. Se você não trabalha essa base desde o momento em que a criança entra na creche e não oferece todas as possibilidades que ela pode vivenciar, essa criança perde muito.

Então precisamos dar oportunidades para ela experimentar, participar e desenvolver suas habilidades desde cedo.

Inclusão também significa acolher a família

O projeto não se limita ao trabalho realizado dentro da sala de aula. Para Elinéia, as famílias precisam fazer parte desse processo, porque muitas vezes a escola acaba sendo um dos principais espaços de orientação e apoio que elas encontram.

Rhema Neuroeducação: Por que o projeto também precisa olhar para as famílias?

Elinéia Miranda: É a partir dessas famílias que a gente consegue ajudar as crianças. Se não tivermos um olhar atento de acolhimento e orientação para essas famílias, elas ficam perdidas.

Muitas vezes, a escola é o único lugar de apoio que essas mães têm. Então precisamos ouvir, orientar e juntar os pedacinhos de cada família para buscar a melhor forma de ajudar aquela criança.

Hoje o projeto também está criando momentos com psicopedagoga, psicóloga e fonoaudióloga para conversar com os pais e orientar como eles podem ajudar seus filhos em casa e na escola.

Como as professoras se prepararam para receber as crianças?

A formação da equipe se tornou uma parte importante do projeto. Além das orientações, Elinéia passou a acompanhar as professoras de perto, observando as crianças, conversando com a equipe e ajudando a encontrar caminhos diante das dificuldades encontradas na rotina.

Rhema Neuroeducação: O que mudou no trabalho das professoras depois que o projeto começou?

Elinéia Miranda: O projeto fez com que elas tivessem um novo olhar. A gente conversa sobre como está sendo o trabalho, sobre as vivências e sobre os relatos delas.

É importante não trabalhar só com as crianças e com as famílias, mas também com as professoras, saber como elas estão se sentindo e quais dificuldades estão encontrando.

Eu também vou de sala em sala, observo as crianças, converso, brinco e procuro ajudar as professoras nesse processo. Muitas delas se capacitaram para poder ajudar melhor as crianças.

O caso de Laura: quando o acolhimento começa a transformar a rotina

Entre as histórias que marcaram a trajetória de Elinéia está a de Laura. Quando chegou à creche, a menina falava poucas palavras, apresentava muita rigidez e tinha dificuldade para se comunicar e interagir. A família também estava insegura sobre sua permanência na escola.

Rhema Neuroeducação: Você pode contar um caso que tenha mostrado para você o impacto desse trabalho?

Elinéia Miranda: A Laura chegou falando poucas palavras. Ela quase não se comunicava com a gente e tinha muita rigidez. Ela gritava muito e a mãe queria desistir.

Eu conversei com a mãe e disse: “Você não está sozinha. A partir desse momento, você não está mais sozinha. E a gente vai trabalhar junto para que a Laura desenvolva bem, com autonomia”.

Foi um processo de formiguinha, trabalhoso. Mas, no meio do ano, a Laura já não chegava mais na creche gritando e chorando. Ela chegava querendo entrar para a sala, socializava mais com os colegas, permitia que a gente tocasse nela e começou a falar novas palavrinhas.

A mãe contou que ela adorava música. Então usamos as músicas que ela gostava nas nossas rodas e nos momentos de musicalidade.

Quando a família percebe a mudança em casa

Para a equipe, os resultados do projeto também aparecem no retorno das famílias. No caso de Laura, a mãe percebeu a transformação da filha ainda durante o ano letivo e continuou compartilhando com Elinéia os avanços depois que ela deixou a creche.

Rhema Neuroeducação: O que você sentiu ao receber esse retorno da família?

Elinéia Miranda: No meio do ano, a mãe falou: “Professora, eu estou surpreendida com como a minha filha mudou. Como ela evoluiu nesse processo dentro da creche”.

Quando a gente recebe esses comentários das mães, fica muito alegre, porque sabe que o trabalho está dando certo.

Hoje a Laura está no Semei e está muito mais desenvolvida. A mãe manda vídeos mostrando que ela já está falando bastante, conversando e interagindo mais.

Para a gente, que viu aquela criança no início, é muito significativo perceber que um trabalho feito com carinho, amor, respeito e acolhimento pode contribuir para essa evolução.

O vínculo não termina quando a criança deixa a creche

A relação construída entre equipe, crianças e famílias também continua depois da saída da creche. Elinéia conta que algumas famílias continuam entrando em contato e compartilhando os avanços dos filhos. Em alguns casos, as próprias crianças retornam para visitar o espaço onde viveram parte importante de sua primeira experiência escolar.

Rhema Neuroeducação: O que significa para você continuar recebendo notícias dessas crianças depois que elas saem da creche?

Elinéia Miranda: Eu digo para as famílias: “Vocês saíram da creche, mas eu sempre vou estar aqui para vocês quando precisarem”.

Tem crianças que sentem saudade e querem voltar para a creche. O Ravi, por exemplo, já saiu, mas vem fazer visita, vai à sala de recursos e encontra as professoras.

A gente percebe que o trabalho fluiu e fez efeito dentro dessas famílias.

O que a experiência como mãe também trouxe para Elinéia?

A história profissional de Elinéia também se cruza com sua própria experiência familiar. Ela é mãe de uma menina autista de sete anos, com transtorno da aprendizagem e outras questões associadas ao TEA. Embora a inclusão já fosse uma área que despertava seu interesse antes da maternidade, a experiência com a filha fez com que ela buscasse ainda mais conhecimento.

Rhema Neuroeducação: Como a experiência com sua filha influenciou sua busca por conhecimento sobre inclusão?

Elinéia Miranda: A inclusão já era uma área que me chamava muita atenção. Quando eu trabalhava no interior, já via situações de crianças e professoras que às vezes não sabiam como ajudar.

Mas, quando me deparei também com uma criança com TEA dentro da minha própria vida, busquei me aprimorar ainda mais. Quis conhecer esse mundo para compreender melhor o mundo delas.

Quanto mais a gente aprende, mais quer aprender e buscar para enriquecer a nós mesmos e também a quem está perto da gente.

Como a formação pode transformar a prática dentro da escola?

Elinéia também buscou formação para ampliar sua atuação. Entre suas especializações está uma pós-graduação em ABA pela Rhema. Segundo ela, o curso abriu novas possibilidades de conhecimento que passaram a ser compartilhadas com colegas, famílias e alunos.

Rhema Neuroeducação: O que a sua formação na Rhema trouxe para sua prática?

Elinéia Miranda: Quando você tem dentro da família uma criança especial, você se doa ainda mais para buscar e aprender. Não só para ajudar sua filha, mas também para ajudar seus alunos e as famílias dos alunos.

Quando fiz a pós na Rhema em ABA, abriu-se um novo leque de conhecimentos e informações que eu não tinha. E, nesse caminho, eu não podia aprender só para mim. O que eu aprendi também compartilhei com as pessoas que estavam à minha volta, com as famílias e com os colegas de profissão.

Um projeto que começou com uma necessidade e continua crescendo

O “Autismo e Identidade: Acolhendo com Amor e Respeito” continua ganhando novas ações. O projeto reúne atividades sensoriais, estratégias visuais, tecnologias, momentos de orientação às famílias e capacitação das professoras.

E talvez seja justamente essa a principal mensagem deixada por sua trajetória: incluir não é apenas receber uma criança na escola. É criar condições para que ela participe, se comunique, desenvolva autonomia e seja reconhecida como parte daquele espaço.

Se você também deseja se preparar para compreender melhor o desenvolvimento infantil, a inclusão e as diferentes necessidades das crianças em sala de aula, conheça tudo sobre a Pós-Graduação em Transtorno do Espectro Autista (TEA) da Rhema Neuroeducação.

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Cada criança é um mundo. Te preparamos para cada uma delas!

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