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Paternidade Atípica: o que meus filhos me ensinaram

Gustavo França compartilha sua experiência com a paternidade atípica, a adoção dos filhos e os aprendizados que transformaram seu olhar sobre a inclusão.

Quando se fala em paternidade, é comum pensar nos desafios, nas descobertas e nas transformações que chegam com a chegada dos filhos. Mas e quando um dos filhos é neurodivergente? Como a família reorganiza a rotina? O que muda na forma de enxergar o desenvolvimento? E como a experiência de ser pai pode transformar também a atuação de um profissional que já trabalha com inclusão?

Essas perguntas ganharam novos significados na trajetória de Gustavo França. Psicólogo, Psicopedagogo, Pedagogo, Mestre em Educação e especialista em Psicopatologia, Psicanálise, Transtornos Mentais e TEA, ele já atuava com desenvolvimento e inclusão quando se tornou pai de dois irmãos gêmeos por meio da adoção. Um deles, Márcio, é neurodivergente, e sua chegada à família transformou não apenas a rotina de Gustavo, mas também seu olhar profissional sobre as crianças, as famílias e o processo de aprendizagem.

Convidado especial do bloco de entrevistas da Jornada de Alfabetização e Neurociência na Inclusão, promovida pela Rhema Neuroeducação, Gustavo compartilhou sua experiência com a paternidade atípica, falou sobre os desafios e aprendizados de construir uma família e mostrou como seus filhos também ensinaram a ele sobre afeto, desenvolvimento, inclusão e respeito às singularidades de cada criança.

Assista ao vídeo abaixo e confira a entrevista completa.

Paternidade atípica: como começou o sonho de ser pai?

Antes de falar sobre os desafios da paternidade atípica, é preciso voltar ao início dessa história. Para Gustavo, o desejo de ser pai já existia muito antes da adoção.

Rhema Neuroeducação: Como surgiu o sonho de ser pai e como vocês decidiram pela adoção?

Gustavo França: O desejo de ser pai sempre existiu. Eu cresci em uma família muito amorosa, muito afetiva, com muito carinho e cuidado. Então, sempre projetei isso para a minha própria vida e para o meu modelo de família.

Quando eu e o Anderson começamos a pensar na adoção, percebemos que precisávamos primeiro reorganizar nossa vida. Era necessário organizar o trabalho, a casa e o espaço para receber as crianças. Então começamos o processo de adoção e entramos na fila.

Como foi descobrir que a adoção poderia envolver uma criança com deficiência?

Durante o processo de adoção, Gustavo se deparou com uma questão que chamou sua atenção: era necessário indicar, entre outras características, se estaria preparado para receber uma criança com deficiência ou outras condições de saúde.

Rhema Neuroeducação: Você imaginava que teria uma criança típica ou esse processo fez você repensar isso?

Gustavo França: Quando a gente precisa preencher o perfil da criança, aparecem questões sobre idade, deficiência, doenças raras e outras condições. Para mim, aquilo foi um choque, porque eu pensava: “É uma criança”.

Como eu já trabalhava com inclusão, não tinha grandes restrições. A minha preocupação era mais com a estrutura da casa, porque tinha muitas escadas. Eu precisava pensar em como preparar o ambiente para a criança que chegasse.

Quando Gustavo conheceu os filhos, a conexão foi imediata

Depois de conhecer outras crianças durante o processo, uma ligação de uma assistente social mudou o rumo da história. Ela apresentou a possibilidade de adoção de dois irmãos gêmeos.

Gustavo e Anderson viajaram para conhecê-los. No fim daquele encontro, Simon não queria voltar para o abrigo. Queria ir para a casa dos pais. A partir daí, começou uma corrida para conseguir a guarda provisória e levar os meninos para casa.

Como foi o primeiro encontro com Márcio?

A chegada de Márcio marcou o início de uma relação que, para Gustavo, já nasceu acompanhada de vínculo e reconhecimento.

Rhema Neuroeducação: Como foi conhecer o Márcio e perceber que ele faria parte da sua família?

Gustavo França: O Márcio chegou com questões motoras, paralisia cerebral, autismo e deficiência intelectual. E existe uma coisa curiosa nessa história: eu tinha colocado como preocupação a possibilidade de uma criança com deficiência física justamente por causa das escadas da minha casa. E aí chega o Márcio.

Ele nunca quis usar cadeira de rodas. Sempre dizia: “Pai, um dia eu vou andar”. E, com todo o processo de terapias, psicopedagogia, psicologia, fisioterapia e fonoaudiologia, ele foi avançando. Hoje, ele caminha sozinho.

Mas o momento que mais marcou foi quando eu o vi pela primeira vez. Ele colocou a mão no meu colo e perguntou: “Você que vai ser meu papai, né?”. Eu falei: “Sim, vai ser eu”. Então, naquele momento, já não tinha mais dúvida. Era para ser eles.

O que a paternidade atípica significou para Gustavo?

Apesar de todas as demandas que chegaram junto com a paternidade, Gustavo não enxergou a experiência como algo impossível de enfrentar. Pelo contrário: hoje, ele entende que sua própria trajetória profissional o havia preparado para aquele momento.

Rhema Neuroeducação: Como foi para você viver a paternidade atípica depois de tantos anos estudando e trabalhando com inclusão?

Gustavo França: Hoje eu entendo que Deus me preparou a vida inteira para receber o Márcio. Tudo o que eu estudei e tudo o que eu trabalhei na área de inclusão, psicologia e desenvolvimento infantil era para eu saber o que fazer com ele e para o desenvolvimento dele.

Então, para mim, a paternidade atípica não foi um bicho de sete cabeças. Foi algo muito natural. Foi corrido, mas foi natural.

O que mudou depois que Gustavo se tornou pai de uma criança neurodivergente?

A chegada dos filhos não transformou apenas a rotina familiar. Ela também modificou a maneira como Gustavo enxergava seus pacientes, alunos e, principalmente, as famílias.

Rhema Neuroeducação: O que mudou para você depois que se tornou pai de uma criança neurodivergente?

Gustavo França: Primeiro, eu desacelerei. Desacelerei a quantidade de trabalho e me reorganizei na vida.

Também passei a olhar meus pacientes, meus alunos e principalmente os pais dos meus pacientes de uma maneira diferente. Passei a entender muito mais como eles se sentiam e a ausência de uma rede de apoio que muitas vezes eles não tinham.

Meu trabalho, que às vezes ficava muito centrado na criança, passou a incluir também o cuidado com os pais. Com a chegada dos meninos, principalmente do Márcio, passei a olhar as pessoas, o mundo e a educação de uma maneira diferente.

O que a paternidade ensinou ao profissional Gustavo França?

Essa mudança de olhar também alterou a maneira como Gustavo pensava o desenvolvimento infantil. Antes, seu foco estava muito relacionado ao ensino de habilidades. Depois da experiência como pai, outras perguntas passaram a fazer parte de sua atuação.

Rhema Neuroeducação: O que a paternidade ensinou ao profissional Gustavo França?

Gustavo França: Um olhar muito mais sensível. Eu pensava muito na questão de ensinar habilidades: sentar, andar, ouvir, escrever, ler.

Depois que o Márcio chegou, eu entendi que primeiro preciso ensinar essa família a entender quais são as potencialidades daquela criança, quais são as dificuldades e quais são os papéis da família e do terapeuta.

Todos somos corresponsáveis, mas existe também a questão do afeto. Não adianta cobrar uma criança ao extremo para que ela aprenda se ela não tem segurança, afeto e motivação para aprender.

Então mudou muito o meu olhar. Passei a ter uma concepção muito mais voltada para o afeto e para uma aprendizagem com um olhar mais parental.

Como a família organiza a rotina com dois filhos e necessidades diferentes?

A rotina familiar também precisou ser reorganizada para atender às necessidades dos dois filhos sem transformar a infância deles em uma sequência de obrigações.

Rhema Neuroeducação: Como vocês conseguem equilibrar, dentro da rotina familiar, os cuidados e as necessidades de cada filho?

Gustavo França: A gente tenta organizar tudo de uma forma que eles possam ser crianças. Hoje, eu sempre falo para eles que a obrigação é estudar, brincar e dormir. O restante é comigo e com o pai deles.

A ideia é que eles possam viver a infância sem carregar preocupações que são dos adultos.

Como a paternidade mudou a rotina profissional de Gustavo?

Para conseguir estar mais presente na vida dos filhos, Gustavo também precisou rever sua rotina profissional. Ele reduziu atendimentos e reorganizou sua clínica para ter mais flexibilidade.

Hoje, mantém uma atuação que reúne clínica, aulas na Rhema, pesquisa e doutorado. Inclusive, sua tese de doutorado tem Márcio como tema.

Rhema Neuroeducação: Como você conseguiu reorganizar sua carreira para conciliar trabalho, estudos e paternidade?

Gustavo França: A clínica hoje consegue andar sozinha. Eu reduzi muito os meus atendimentos. Antes, tinha entre 30 e 40 pacientes e hoje são poucos, mais pontuais.

Fiz isso justamente para ter uma organização maior, pensando na qualidade de vida dos meninos e em ter mais flexibilidade. Também precisei diminuir um dia de aula na Rhema por causa do doutorado. E hoje a minha tese de doutorado é sobre o Márcio.

O que Gustavo diria para outros pais que vivem a paternidade atípica?

Depois de compartilhar tantos momentos da própria trajetória, Gustavo deixa uma mensagem para pais que estão começando a lidar com uma realidade semelhante.

Rhema Neuroeducação: Que conselho você daria para outros pais que estão começando a viver essa paternidade atípica?

Gustavo França: Calma e paciência. Às vezes a gente acha que tudo vai desmoronar porque acredita que precisa resolver todas as demandas da criança ao mesmo tempo. Precisa de fono, psicólogo, fisioterapia...

E às vezes a criança só precisa, naquele momento, de atenção. As outras coisas vão se encaixando.

Às vezes a gente acha que é o fim. Mas é um começo. E é um começo que eu confesso que é lindo, principalmente quando a gente vê cada degrauzinho de desenvolvimento dessa criança.

É preciso ter calma, paciência, cuidado e afeto. Mas também não ficar parado: correr atrás dos direitos, daquilo que a criança necessita e se impor quando for necessário.

Gustavo França e a sua trajetória com a Rhema Neuroeducação

A entrevista também abriu espaço para falar sobre a relação de Gustavo com a Rhema. Antes de professor, ele também foi aluno da instituição.

Rhema Neuroeducação: O que a Rhema significa para você?

Gustavo França: Primeiro, a Rhema é uma família para mim. Segundo, foi um divisor de águas na minha carreira.

Quando comecei a dar aula na Rhema, minha filosofia de vida e minha filosofia de carreira começaram a mudar. Eu percebi que o lugar onde estava já não combinava com aquilo em que eu acreditava.

A Rhema me acolheu, me dá possibilidades de crescer, estudar e ter contato com coisas inovadoras. A pesquisa, a inovação, a tecnologia, os assuntos de inclusão, neurodiversidade e neuroeducação chegam primeiro para a gente.

E existe também o cuidado que todos os setores têm com os professores. Para mim, isso não tem preço. Eu posso abrir mão de muita coisa, mas da Rhema eu não abro.

Uma história de paternidade, inclusão e transformação

A história de Gustavo mostra que a paternidade atípica também pode transformar quem está ao redor da criança. No caso dele, a experiência como pai modificou sua rotina, sua carreira e, principalmente, sua maneira de compreender o desenvolvimento.

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Cada criança é um mundo. Te preparamos para cada uma delas!

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