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Poda Neural no começo do ano letivo: Como lidar?

Poda neural é um dos processos mais importantes do desenvolvimento infantil, e também um dos menos compreendidos na escola.

No começo do ano letivo, esse processo fica mais evidente, porque o cérebro da criança está lidando, ao mesmo tempo, com mudanças de rotina, ambiente, pessoas e expectativas.

Por isso, o que o professor observa nas primeiras semanas de aula não é aleatório, nem falta de estratégia pedagógica. É o cérebro tentando se reorganizar para funcionar dentro de um novo contexto.

Quando essa leitura não acontece, o risco é alto: comportamentos naturais passam a ser interpretados como dificuldade, e a exclusão começa de forma silenciosa, logo nos primeiros dias de aula.

O começo do ano letivo é um gatilho forte para o cérebro infantil

Antes de mais nada, é importante lembrar que, para a criança, o início do ano não é apenas um recomeço escolar. É uma mudança completa de cenário. Muda a rotina, muda o ambiente, mudam as pessoas, mudam as expectativas.

E, conforme apontam estudos do desenvolvimento infantil conduzidos por Edna Maria Marturano, esse período é um dos mais sensíveis da vida escolar. Não porque a criança “não dá conta”, mas porque o cérebro precisa se reorganizar diante de muitas demandas novas ao mesmo tempo.

Nesse sentido, o que o professor observa em sala não é desinteresse nem falta de esforço. É o cérebro tentando entender como funcionar dentro de um novo contexto.

Mas afinal, o que é poda neural?

De forma simples e direta: poda neural é o processo pelo qual o cérebro seleciona as conexões que serão fortalecidas e deixa de usar aquelas que não fazem mais sentido.

Durante a infância, o cérebro cria inúmeras conexões. Com o tempo, ele precisa organizar esse excesso para funcionar de forma mais eficiente. Portanto, a poda neural não é perda, é organização.

O ponto-chave é que esse processo fica mais evidente em períodos de mudança, como o começo do ano letivo. Quando tudo muda de uma vez, o cérebro entra em um modo intenso de reorganização — e isso aparece no comportamento, na atenção e na aprendizagem.

Por que a poda neural parece “dificuldade” no começo do ano?

É aqui que muitos desencontros acontecem. Pesquisadores como Daniel Siegel explicam que, quando o cérebro está em reorganização, o funcionamento pode oscilar. Há dias melhores, dias mais difíceis, variações de atenção, mudanças no interesse e maior necessidade de previsibilidade.

Entretanto, quando o professor não tem essa leitura neurocientífica, essas oscilações costumam ser interpretadas como:

  • falta de maturidade,
  • dificuldade de aprendizagem,
  • problema de comportamento.

Na prática, o que está acontecendo é um cérebro tentando se organizar para funcionar melhor. Ou seja, a poda neural vira “dificuldade” apenas porque está sendo mal interpretada.

O erro pedagógico mais comum no início do ano

Nesse ínterim, surge um dos maiores erros pedagógicos do começo do ano: exigir desempenho antes que o cérebro esteja adaptado.

Pesquisas acadêmicas sobre desenvolvimento infantil, como as analisadas por Sarah David, mostram que funções cognitivas e emocionais não se desenvolvem de forma uniforme entre as crianças. Cada cérebro tem um ritmo próprio.

Ainda assim, a escola costuma partir do mesmo planejamento, do mesmo tempo de resposta e das mesmas exigências para todos. Quando isso acontece durante a poda neural, o resultado não é avanço — é afastamento da aprendizagem.

Portanto, inclusão não começa no conteúdo. Começa na leitura correta do funcionamento cerebral.

Quando insistir demais atrapalha o cérebro

Muitos professores fazem isso com boa intenção: insistem, cobram, aceleram, tentando “não deixar a criança para trás”. Porém, durante a poda neural, acelerar pode atrasar.

Isso acontece porque:

  • o excesso de estímulo gera sobrecarga,
  • instruções longas dificultam o processamento,
  • mudanças constantes impedem a fixação.

Assim sendo, o cérebro gasta energia tentando se organizar, em vez de aprender.

O que ajuda o cérebro durante a poda neural no começo do ano?

Agora que o erro está claro, é hora de olhar para o que realmente ajuda.

  • Em primeiro lugar, rotinas previsíveis. Não é engessar a sala, mas deixar claro o começo, o meio e o fim. Quando a criança sabe o que vem a seguir, o cérebro se organiza melhor.
  • Além disso, reduzir estímulos é fundamental. Apresentar todas as regras, combinados e informações de uma vez costuma ser demais para um cérebro em reorganização. Introduzir aos poucos faz toda a diferença.
  • Outro ponto essencial é instrução objetiva e visual, sempre que possível. Dividir tarefas em etapas, mostrar antes de pedir e repetir com sentido fortalece conexões importantes.
  • Por fim, talvez o mais difícil: respeitar o tempo de adaptação antes de exigir alto desempenho. Ajustar o percurso não é baixar expectativa. É alinhar o ensino ao funcionamento do cérebro.

Poda neural e inclusão: o que isso muda na prática?

Quando o professor entende a poda neural, a inclusão deixa de ser um discurso bonito e passa a ser uma prática diária. O comportamento deixa de ser visto como problema e passa a ser lido como parte do processo de aprendizagem.

Sem esse conhecimento, o professor tenta, erra, se cansa e improvisa. Com ele, as decisões ficam mais seguras, o planejamento mais intencional e o começo do ano muito mais leve.

Entender poda neural exige formação

E aqui entra um ponto fundamental: neurociência não é conteúdo rápido. Não se aprende poda neural em um post ou em uma dica solta. É formação.

A Pós-Graduação em Neurociência e Neuropedagogia na Educação existe justamente para isso: dar base científica para o professor saber o que observar, como planejar e como intervir sem improvisar, especialmente no começo do ano, quando o cérebro da criança mais precisa de compreensão.

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