Mariana Zacas é mãe de três meninas, sendo duas delas — Luana e Juju — autistas. Formada em Direito, ela transformou sua experiência com a maternidade atípica em uma trajetória de informação, acolhimento e apoio a outras famílias.
É criadora da comunidade Caminhando Juntas, que reúne cerca de 150 mães, e também atua na área de neuromodulação, em uma clínica própria em Curitiba. Mariana foi convidada da Jornada da Escola que Inclui, evento promovido pela Rhema Neuroeducação em 27 de agosto.
Quando o diagnóstico de autismo chega para uma família, não vem acompanhado de um manual de instruções. É preciso aprender, muitas vezes do zero, a entender o que aquilo significa, a lidar com a insegurança e a encontrar caminhos que ajudem a criança a se desenvolver — sem que o diagnóstico se torne uma sentença.
Foi diante dessa realidade que Mariana Zacas, mãe de três meninas — sendo Luana e Juju autistas —, decidiu transformar aquilo que vivia dentro de casa em uma proposta de apoio a outras famílias. Formada em Direito, Mariana buscou conhecimento sobre desenvolvimento, comportamento e saúde para entender melhor as filhas, e criou a comunidade Caminhando Juntas, além de um curso online sobre maternidade atípica.
A iniciativa reúne hoje cerca de 150 mães em um grupo ativo, que trocam experiências, dúvidas e dificuldades relacionadas à maternidade atípica. Mariana também é sócia de uma clínica de neuromodulação em Curitiba, criada a partir da própria experiência da família com o tratamento.
Convidada da Jornada da Escola que Inclui, promovida pela Rhema Neuroeducação em 27 de agosto, Mariana compartilhou sua trajetória, explicou como nasceu seu projeto e contou a história de Luana e Juju — duas gêmeas com diagnósticos completamente diferentes de autismo.
Assista ao vídeo abaixo e confira a entrevista completa.
Quem é Mariana Zacas?
Mariana Zacas é formada em Direito, mas foi a maternidade que a levou para um caminho completamente diferente. Mãe de três filhas — Bianca, hoje com treze anos, e as gêmeas Luana e Juju, nascidas prematuras em 2017 —, Mariana buscou conhecimento fora da sua área de formação para entender e apoiar o desenvolvimento das filhas autistas.
Rhema Neuroeducação: Qual é a sua formação? Você estudou para poder ajudar suas filhas?
Mariana Zacas: Eu não sou da área da saúde, eu sou advogada, sou formada em Direito. A partir dessas descobertas, das questões alimentares, eu iniciei uma graduação de nutrição. Não concluí, mas fiz dois anos. Depois eu entendi que, até eu acessar todo o conhecimento que eu desejava para poder ajudar as meninas, demoraria muitos anos. E, infelizmente, eu não tenho esse tempo, porque tenho três filhas, mais a casa, mais o marido, mais a vida que acontece.
Como veio o diagnóstico das gêmeas Luana e Juju?
As gêmeas nasceram prematuras em 2017, em um início já desafiador. Foi por volta dos seis a nove meses de vida de Luana que Mariana começou a notar sinais diferentes — e o diagnóstico só veio dois anos depois.
Rhema Neuroeducação: Como começou a perceber que havia algo diferente com a Luana?
Mariana Zacas: Quando Luana tinha por volta de seis, nove meses, eu já questionava a pediatra, porque eu percebia que existia algo diferente. Ela era muito molinha, eu chamava a atenção dela e ela não sorria, chamava pelo nome e não interagia muito. A gente fica naquela, né? "Quem procura acha, mãe. Gêmeos é diferente, fica tranquila." Até que, mesmo indo em dois neuros, só tivemos o diagnóstico quando ela fez dois anos, através de uma neuropsicóloga, com um teste específico para autismo. Na época, morávamos em Apucarana, no norte do Paraná, uma cidade com poucos recursos. Luana teve diagnóstico de autismo nível três — tinha muitos déficits, não se comunicava de nenhuma forma, era muito hipotônica e vivia doente.
Diante da orientação de um especialista de que a estrutura disponível na cidade não seria suficiente, a família se mudou para Balneário Camboriú, em Santa Catarina, em busca de intervenção precoce. Foi lá, meses depois, que veio o segundo diagnóstico: Juju também era autista, mas em nível 1 de suporte — uma realidade bem diferente da irmã gêmea.
Rhema Neuroeducação: Como foi receber um segundo diagnóstico, tão diferente do primeiro?
Mariana Zacas: Eu vou dizer para vocês que o segundo foi bem pior que o primeiro, porque eu não esperava. Como elas eram muito diferentes, e a gente, antes de conviver com o autismo, não tem clareza do que são os critérios diagnósticos, muitas vezes a gente acha que são só os níveis graves. Depois de me familiarizar com o diagnóstico, hoje eu vejo que não é só o déficit que configura autismo — é uma neurodivergência, uma forma de funcionar diferente.
O caso de Luana: do nível 3 ao nível 2 de suporte
Entre as histórias que marcam a trajetória de Mariana está a evolução de Luana, que inicialmente apresentava muitos déficits e hoje é uma criança com muito mais autonomia e comunicação funcional.
Rhema Neuroeducação: O que mudou no desenvolvimento da Luana ao longo do tempo?
Mariana Zacas: Hoje a Luana é nível dois de suporte. Ela já sabia ler e reconhecer as letras antes de todo mundo. Ela não interage muito, mas tem pontos de aptidão e de destaque, ela se desenvolve, ela tem talentos também, não tem só déficits. Isso trouxe segurança para ela. E hoje, com o nível de desenvolvimento que ela alcançou, eu posso dizer com muito mais segurança algo que eu sempre acreditei, mas não tinha certeza: eles entendem muito mais do que conseguem demonstrar. Então não fale das dificuldades da criança na frente dela — o professor sabe — porque ela está prestando atenção, ela está percebendo aquele ambiente, ela só não consegue muitas vezes dizer, mas ela percebe.
Um dos pontos que Mariana destaca como decisivo nesse processo foi deixar de olhar para todo comportamento como algo automaticamente ligado ao autismo, passando a investigar também questões de saúde física.
Por que Mariana passou a olhar além do "comportamento do autismo"?
Ao perceber que Luana não dormia e apresentava desconfortos físicos, Mariana passou a questionar se todos os comportamentos observados eram, de fato, característicos do autismo — ou se havia questões de saúde não identificadas por trás deles.
Rhema Neuroeducação: O que te fez procurar outras explicações além do diagnóstico?
Mariana Zacas: Muitas vezes a família está ali insistindo na intervenção terapêutica, ou cedendo aos medicamentos, e nada daquilo vai resolver o problema daquele indivíduo, que está sendo resumido ao autismo. "Ela faz isso porque é autista, ela bate porque é autista, ela grita porque é autista" — e muitas vezes a criança está com dor. No caso da Luana, ela não dormia porque tinha dor de barriga, tinha a barriga estufada.
Foi a partir dessa virada de chave que eu comecei a investigar questões alimentares, removemos glúten, removemos leite, fizemos exames de rastreio e iniciamos uma suplementação individualizada. A partir daí, eu tive outra criança — outra Luana, com outra velocidade no desenvolvimento. Ela começou a dormir, teve muito mais aproveitamento das intervenções terapêuticas e parou de adoecer.
Como nasceu a comunidade Caminhando Juntas?
O que começou como um compartilhamento pessoal e despretensioso nas redes sociais acabou se transformando em uma rede de apoio para outras famílias.
Rhema Neuroeducação: Como surgiu a comunidade Caminhando Juntas?
Mariana Zacas: Ela nasceu a partir do pedido das mães. Quando eu comecei a compartilhar, eu fazia reuniões eventuais com algumas mães, e elas falaram: "Seria sensacional se a gente tivesse um grupo para dividir experiências, compartilhar tratamentos, debater." Eu acatei a ideia delas. Na época, gravei um curso levando convidados — psicóloga, terapeuta ocupacional, psiquiatra com abordagem funcional e integrativa, advogado falando sobre direitos da pessoa autista. Em paralelo, existe o grupo de mães no WhatsApp, que hoje tem aproximadamente 150 mães, onde compartilhamos dificuldades, dicas e dúvidas sobre tudo que envolve a maternidade atípica.
Qual a importância de falar abertamente sobre inclusão?
Para Mariana, uma das formas mais eficazes de promover inclusão é falar abertamente sobre o autismo — mas de um jeito que gere identificação e empatia, e não confronto.
Rhema Neuroeducação: Qual caminho você encontrou para lidar com situações difíceis envolvendo as filhas e outras famílias?
Mariana Zacas: O caminho que eu encontrei, e que faz sentido, é falar abertamente. Mas existe uma diferença: você precisa saber como falar. A gente precisa ser ouvido, e para ser ouvido eu preciso promover identificação, e para promover identificação eu preciso gerar empatia. Sempre que as meninas trazem alguma situação, eu vou para o grupo de mães e partilho a minha história, sempre em áudio, nunca de forma escrita. Falo sempre das qualidades da criança, porque muitas vezes elas são resumidas a um diagnóstico. E peço que expliquem aos filhos que todos nós somos diferentes, que é para acolher o amiguinho. Na maioria das vezes, esse movimento é muito fértil.
O que a maternidade atípica ensinou sobre inclusão na escola?
Ao decidir matricular Luana na escola, Mariana não pensou apenas em como ela acompanharia o conteúdo pedagógico — mas em como seria a experiência social e emocional da filha.
Rhema Neuroeducação: Como foi a decisão de colocar a Luana na escola?
Mariana Zacas: Eu observava aquelas crianças e via que já não era fácil para a Juju, que tinha menos déficits. Se eu colocasse a Luana naquela turma, ela não ia querer vir para a escola, porque os desafios seriam muito arrojados. Lembro que até a equipe terapêutica não concordou comigo na época, disseram: "Mari, mas ela vai acompanhar o pedagógico." Eu falei: não é sobre o pedagógico, é sobre o social, é sobre o emocional. Eu queria que ela, de alguma forma, fosse atraente em algum nível para os amiguinhos — e ela já sabia ler antes de todo mundo, já reconhecia as letras. Ela não interage tanto, mas tem pontos de aptidão e talentos, não tem só déficits.
O que essa trajetória ensina a outras famílias e professores?
A história de Mariana reforça uma ideia central: o diagnóstico não define o futuro de uma criança, e ninguém deve ser reduzido a ele. Como ela mesma resume, "a gente não é culpada por um diagnóstico" — e a resiliência de seguir buscando conhecimento e caminhos de desenvolvimento é o que sustenta essa trajetória, tanto dentro de casa quanto na relação com outras famílias.
Para Mariana, quanto mais as pessoas se aproximam da realidade de quem convive com uma deficiência ou neurodivergência, mais preparada a sociedade estará para acolher — seja hoje, seja no futuro, quando qualquer família pode se ver diante da mesma realidade.
Se você também deseja se preparar para compreender melhor o desenvolvimento infantil, a inclusão e as diferentes necessidades das crianças em sala de aula, conheça tudo sobre a Pós-Graduação em Transtorno do Espectro Autista (TEA) da Rhema Neuroeducação.
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Cada criança é um mundo. Te preparamos para cada uma delas.