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Falar sobre Autismo na Escola Custou o Emprego Dela

Autismo na escola é um tema que exige cada vez mais preparo, sensibilidade e conhecimento. Logo, em um momento em que professores e profissionais da educação são desafiados diariamente a construir práticas verdadeiramente inclusivas, ouvir quem vive essa realidade faz toda a diferença.

Por isso, no último evento on-line, ao vivo e gratuito promovido pela Rhema Neuroeducação — a Oficina de Práticas para Inclusão na Escola — convidamos Cláudia Mattos para compartilhar sua história e sua experiência com educadores de todo o Brasil.

Educadora Física, Neuropsicomotricista, palestrante, criadora do projeto Alma de Mãe, coautora do livro Maternidade Atípica e mãe do Rafael, uma criança autista, ela transformou a própria história em uma missão de informar, acolher famílias e contribuir para uma inclusão baseada em conhecimento.

Portanto, se você não pôde acompanhar a participação de Cláudia Mattos na oficina, assista ao trecho da palestra e continue a leitura com a entrevista completa. Além disso, entre os relatos, ela compartilha como defender a inclusão e falar sobre o TEA acabou mudando os rumos da sua trajetória na educação.

Confira!

Uma história que começou muito antes do Autismo

Rhema Neuroeducação: Para começar, quem é a Cláudia Mattos?

Cláudia Mattos: Eu gosto de dizer que sou uma história. Sou mãe do Rafael Henrique, de sete anos, e do Pedro Henrique, de 14 anos. Sou Educadora Física, Neuropsicomotricista, palestrante e criadora do Alma de Mãe. Tudo o que faço nasceu da minha própria caminhada. O autismo chegou à minha vida por meio do meu filho Rafael, mas acabou transformando completamente a mulher e a profissional que eu me tornei.

Rhema Neuroeducação: Como era a sua trajetória antes do Rafael?

Cláudia Mattos: Minha primeira formação foi em Dança, mas o curso foi encerrado e acabei migrando para a Educação Física. Depois fiz uma especialização em Atividade Física Adaptada e, quando me mudei para Vila Velha, passei a trabalhar com musculação. Mesmo assim, sempre me aproximava das pessoas que precisavam de um olhar mais cuidadoso. Eram elas que despertavam meu interesse profissional. Hoje entendo que Deus já estava preparando o meu coração para aquilo que eu viveria mais tarde.

Rhema Neuroeducação: Você comentou que a inclusão sempre esteve presente na sua vida. Como isso aconteceu?

Cláudia Mattos: Minha mãe dizia que eu sempre procurava brincar com as crianças diferentes. Se havia uma criança com síndrome de Down, eu queria brincar com ela. Se havia uma criança cega, eu também me aproximava. Além disso, minha mãe teve hipertensão severa durante muitos anos, e desde pequena desenvolvi esse lado do cuidado. Hoje, olhando para trás, percebo que tudo isso fazia parte da minha história e do propósito que Deus estava construindo para mim.

O surgimento da Alma de Mãe

Rhema Neuroeducação: Como nasceu o Alma de Mãe?

Cláudia Mattos: Tudo começou de forma muito natural. No início, eu compartilhava a nossa rotina no meu perfil pessoal. Mostrava os desafios, as conquistas e aquilo que estava aprendendo ao longo do caminho. Aos poucos, fui percebendo que outras mães começaram a chegar. Elas se identificavam com a nossa história, mandavam mensagens e diziam que encontravam acolhimento naquilo que eu publicava. Foi então que entendi que precisava criar um espaço voltado para isso.

Rhema Neuroeducação: E como surgiu o nome “Alma de Mãe”?

Cláudia Mattos: O nome nasceu porque tudo aquilo vinha da minha alma. Não era um projeto pensado como uma marca ou um negócio. Era uma necessidade de compartilhar aquilo que eu estava vivendo.

Rhema Neuroeducação: Hoje, olhando para o projeto, qual você acredita que é a sua principal missão?

Cláudia Mattos: No começo, eu acreditava que estava ali para ajudar mães. Hoje entendo que minha missão é muito maior. Continuo acolhendo famílias, mas também trabalho para levar informação a professores, profissionais da saúde, igrejas, empresas e todos aqueles que convivem com pessoas autistas.

Rhema Neuroeducação: Além dos conteúdos e das palestras, o Alma de Mãe também ganhou camisetas e outros produtos. Como isso aconteceu?

Cláudia Mattos: As camisetas nasceram de uma necessidade que vivi com o Rafael. Nós enfrentávamos situações de bullying na escola, em parques, na praia e em outros espaços por causa dos comportamentos característicos do autismo. Por isso, eu queria que as pessoas identificassem a criança de forma mais natural e compreendessem melhor aquela realidade.

Temos o cordão de identificação, mas percebi que ele poderia atrapalhar as brincadeiras. Então criei as camisetas com mensagens sobre autismo, mas hoje também produzo outros itens, como lancheiras, bolsas e pochetes, todos feitos por encomenda.

Autismo na escola: quando falar sobre inclusão teve um preço

Rhema Neuroeducação: Em determinado momento da sua trajetória, falar sobre autismo trouxe consequências para a sua carreira. O que aconteceu?

Cláudia Mattos: Depois do diagnóstico do Rafael, comecei a falar sobre autismo na minha rede social. A princípio, tudo acontecia no meu perfil pessoal. Com o tempo, fui ganhando voz e mais pessoas passaram a acompanhar o meu trabalho. Mas foi justamente nesse período que a escola onde eu trabalhava me chamou para conversar. Isso porque eles disseram que eu estava falando muito sobre autismo e que a escola seguia um outro caminho. Pediram que eu diminuísse esse tipo de conteúdo.

Rhema Neuroeducação: Como você reagiu?

Cláudia Mattos: Eu me lembro de responder com uma pergunta: “E se fosse o seu filho? Você calaria a sua voz?”. Eu não conseguiria fazer isso. Pouco tempo depois fui desligada daquela escola. Na época foi difícil, mas hoje consigo olhar para trás com muita gratidão.

Rhema Neuroeducação: O que aconteceu depois dessa demissão?

Cláudia Mattos: Trinta dias depois eu já estava trabalhando em outra escola. Com isso, eu nem cheguei a utilizar o seguro-desemprego. A escola onde estou hoje possui um núcleo de inclusão e, quando cheguei lá, percebi que poderia fazer muito mais. É uma escola com muitas crianças autistas e encontrei um ambiente onde pude desenvolver um trabalho alinhado com aquilo em que acredito. Além disso, hoje sou uma referência para muitas famílias dentro da própria escola e entendo que Deus fechou uma porta para abrir outra muito maior.

Autismo na escola exige professores preparados

Rhema Neuroeducação: Na sua opinião, o que ainda falta para que a inclusão aconteça de verdade nas escolas?

Cláudia Mattos: A inclusão começa pelo conhecimento. Hoje existe muita informação disponível, então o professor precisa buscar formação. Por isso, não basta apenas receber uma criança autista na sala de aula. É preciso compreender como ela aprende, como se desenvolve e como podemos favorecer esse desenvolvimento. Quanto mais preparado estiver o educador, mais segurança ele terá para ensinar.

Rhema Neuroeducação: O que diferencia uma escola verdadeiramente inclusiva?

Cláudia Mattos: Inclusão não é apenas colocar a criança dentro da escola. Sendo assim, é para preparar professores, acolher famílias e construir um ambiente em que todas as crianças aprendam juntas. Na escola onde trabalho hoje, por exemplo, utilizo teatro, brincadeiras e diferentes estratégias para que todas as crianças participem das atividades. A inclusão beneficia todo mundo, não apenas o aluno autista.

Rhema Neuroeducação: E qual é o papel da família nesse processo?

Cláudia Mattos: Eu sempre digo que a família é o maior terapeuta da criança. Ninguém conhece um filho melhor do que os pais. Mas a família não pode caminhar sozinha. Ou seja, escola, terapeutas e familiares precisam trabalhar na mesma direção. Por isso, quando todos falam a mesma linguagem, o desenvolvimento acontece de forma muito mais consistente.

A busca por conhecimento e a Pós-Graduação da Rhema

Rhema Neuroeducação: Em que momento você percebeu que precisava buscar uma especialização?

Cláudia Mattos: Depois do diagnóstico do Rafael eu entendi que precisava estudar. Logo, eu queria compreender melhor o desenvolvimento dele e saber como poderia ajudá-lo da melhor forma possível. Sempre fui uma pessoa que acredita que o conhecimento faz diferença, então comecei a buscar formações que realmente agregassem à minha prática profissional e também à minha vivência como mãe.

Rhema Neuroeducação: Foi nesse contexto que surgiu a Pós-Graduação em Neuropsicomotricidade da Rhema?

Cláudia Mattos: Foi exatamente isso. Eu buscava uma formação que ampliasse o meu olhar. Sendo assim, a Neuropsicomotricidade me mostrou possibilidades que eu ainda não enxergava. Foi uma formação que abriu um leque muito grande de conhecimento e me fez compreender melhor como o movimento está diretamente relacionado ao desenvolvimento da criança. Além disso, eu queria me informar e me capacitar para fazer melhor aquilo que já fazia.

Rhema Neuroeducação: O que mudou na sua atuação depois da pós?

Cláudia Mattos: Mudou muita coisa. A formação ampliou minha visão profissional e abriu novas possibilidades de atuação, inclusive na clínica. Portanto, foi ai que passei a compreender o desenvolvimento de forma muito mais completa e isso refletiu tanto no trabalho com as crianças quanto no atendimento às famílias. Por isso, foi uma experiência muito enriquecedora.

Rhema Neuroeducação: Existe algum aspecto da Rhema que marcou você durante essa formação?

Cláudia Mattos: O acolhimento. Mesmo sendo uma pós on-line, eu nunca me senti sozinha. Os professores sempre estiveram muito próximos e disponíveis. Logo, eu tenho um carinho enorme pela professora Regiane Cristina Lagemann.

Inclusive, ela costuma utilizar um pouco da minha história durante as aulas, e isso me emociona muito porque mostra que aquilo que vivi hoje também contribui para a formação de outros profissionais.

Muito além do autismo na escola: uma missão de acolher famílias e transformar a Educação

Rhema Neuroeducação: Hoje você é conhecida por acolher famílias, orientar profissionais e dar voz à inclusão. Como enxerga essa missão?

Cláudia Mattos: Eu acredito que Deus transformou completamente a minha vida. O que começou com a história do Rafael se tornou um propósito muito maior. Hoje continuo falando com mães, mas também converso com professores, profissionais da saúde, igrejas, empresas e todas as pessoas que desejam compreender melhor o autismo. A inclusão começa quando escolhemos entender o outro. É isso que procuro fazer todos os dias.

Rhema Neuroeducação: Que mensagem você gostaria de deixar para os professores que convivem diariamente com crianças autistas?

Cláudia Mattos: Nunca parem de estudar. A informação transforma vidas. Além disso, o conhecimento engrandece o profissional e muda a realidade das crianças. Não tenham medo de aprender, de perguntar e de buscar novas formas de ensinar.

Rhema Neuroeducação: E para as famílias que estão começando essa caminhada agora?

Cláudia Mattos: Eu diria para não perderem a esperança. O diagnóstico não define o futuro de uma criança. Por isso, cada conquista merece ser celebrada e cada família vai construir a sua própria história. Busquem informação de qualidade, cerquem-se de bons profissionais e nunca deixem de acreditar no potencial dos seus filhos. Foi isso que eu fiz com o Rafael e continuo fazendo todos os dias.

A Inclusão Começa Pelo Conhecimento

A inclusão escolar acontece quando existe planejamento, intencionalidade pedagógica e compreensão das necessidades individuais de cada estudante. Por essa razão, mais importante do que procurar o recurso perfeito é desenvolver um olhar capaz de identificar o que cada criança precisa para avançar em seu processo de aprendizagem.

Compreender o autismo é um processo contínuo que exige conhecimento, atualização e estratégias alinhadas às necessidades de cada criança, por isso clique aqui para conferir Tudo Sobre TEA. Além disso, acompanhe o Instagram da Rhema Neuroeducação para receber dicas práticas, estratégias pedagógicas e conteúdos exclusivos sobre inclusão, aprendizagem e desenvolvimento infantil.

Cada criança é um mundo. Te preparamos para cada uma delas.

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