Dificuldade para Acordar no TDAH: o que investigar na clínica?
Entenda a dificuldade para acordar no TDAH em adultos, o que a pesquisa diz sobre sono e relógio biológico e o que investigar antes de orientar o paciente.
Por Nayara Afonso23 de outubro de 20266 min de leitura
A dificuldade para acordar no TDAH é uma das queixas mais comuns em adultos com o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) atendidos em consultório.
O paciente chega dizendo que não consegue levantar de manhã, perde o primeiro horário, chega atrasado e passa o resto do dia se sentindo um fracasso. Quase sempre, ele já traz a explicação pronta: “sou preguiçoso”.
Diante dessa queixa, o profissional pode confirmar a culpa, tratar como um detalhe da rotina ou investigar o que está acontecendo.
Neste artigo, você vai ver o que as pesquisas mostram sobre sono e relógio biológico no TDAH, por que começar o dia exige tanto das funções executivas e como investigar e orientar sem prometer soluções milagrosas.
O que é “inércia matinal” e por que não é um diagnóstico?
Muita gente chama essa experiência de “inércia matinal”. Mas o termo não é um diagnóstico: é uma forma de descrever o que a pessoa vive, e por trás dela podem existir causas bem diferentes. Por isso, “não consigo acordar” é uma queixa, não uma explicação.
Imagine um adulto com diagnóstico de TDAH que:
Coloca três despertadores e aperta a soneca em todos;
Sente a cabeça pesada, demora para decidir o que vestir e sai de casa atrasado;
Passa por isso quase todos os dias e já perdeu compromissos importantes;
Ouve da família que é falta de força de vontade;
Já tentou dormir mais cedo e deixar o celular longe da cama, sem manter a mudança por muito tempo.
O que mais pesa nem é o atraso: é a sensação de começar o dia já falhando, que acompanha o paciente até a noite e reforça a ideia de que o problema é ele.
Quais podem ser as origens da dificuldade para acordar no TDAH?
É aqui que começa o olhar clínico. Algumas hipóteses para considerar:
Inércia do sono: estado temporário de lentidão e confusão logo depois de acordar, que acontece com qualquer pessoa e tende a ser mais intenso quando se dormiu pouco ou se acordou em um momento de sono profundo;
Relógio biológico atrasado: o ritmo do corpo pode estar defasado em relação ao horário que a vida exige;
Dificuldade de iniciar tarefas: o problema pode não estar só no despertar, mas aparecer em vários momentos do dia;
Outras hipóteses que não podem ficar de fora: sono insuficiente, apneia do sono, sintomas depressivos, ansiedade e efeito de medicação.
O que a pesquisa diz sobre relógio biológico e TDAH?
O corpo funciona com um relógio interno, o ritmo circadiano, que organiza ao longo das 24 horas quando ficamos mais alertas e quando o corpo se prepara para dormir. Um dos sinais desse relógio é a melatonina, hormônio que indica ao corpo que é hora de dormir.
Em muitas pesquisas sobre TDAH e sono, um marcador muito usado é o DLMO (do inglês Dim Light Melatonin Onset, ou “início da secreção de melatonina sob luz fraca”), que mostra em que horário o corpo começa a liberar melatonina.
Um estudo conduzido na Holanda e publicado na revista Psiquiatria Biológica comparou adultos com TDAH com e sem dificuldade crônica para iniciar o sono e um grupo sem TDAH (VAN VEEN et al., 2010).
O grupo com TDAH e essa dificuldade apresentou início e fim do sono mais tardios e liberação de melatonina mais tardia, tanto em comparação com pessoas sem TDAH quanto com adultos com TDAH sem essa dificuldade.
Na prática, isso significa que o despertador pode tocar quando o corpo da pessoa ainda está na “noite biológica” dela. Mas há dois cuidados importantes:
Subgrupo: o estudo trata de adultos com TDAH que têm insônia inicial. Não dá para dizer que todo adulto com TDAH tem o relógio atrasado;
Associação: o estudo não mostra que o atraso causa o TDAH, nem que explica sozinho a dificuldade de acordar.
Por que começar o dia exige tanto das funções executivas?
Começar o dia não é só acordar: é sair da cama, decidir por onde começar, sequenciar pequenas tarefas e ignorar distrações. Tudo isso depende das funções executivas, as habilidades que ajudam a planejar, iniciar, organizar e regular o próprio comportamento.
Um dos modelos mais conhecidos sobre o TDAH, proposto pelo psicólogo americano Russell Barkley, descreve o transtorno a partir de dificuldades na autorregulação e nas funções executivas (BARKLEY, 1997).
Há também estudos que associam o TDAH a diferenças no sistema de dopamina, neurotransmissor envolvido em motivação e recompensa. Um estudo de neuroimagem conduzido por Nora Volkow e colaboradores, nos Estados Unidos, encontrou marcadores dopaminérgicos reduzidos em regiões ligadas à recompensa em adultos com TDAH (VOLKOW et al., 2009).
Isso pode ajudar a compreender por que tarefas sem recompensa imediata, como levantar e tomar banho numa manhã comum, podem custar mais. Mas é preciso não simplificar: nenhum neurotransmissor explica sozinho um comportamento tão complexo quanto acordar e começar o dia.
Como investigar a dificuldade para acordar no TDAH?
O primeiro passo é investigar antes de orientar. Vale entender:
A rotina de sono: que horas o paciente deita, que horas consegue dormir, que horas precisa acordar e se esse padrão muda nos fins de semana;
O padrão real: um diário de sono de uma ou duas semanas ajuda a enxergar o que acontece de fato, e não só a impressão do paciente;
Hábitos e fatores associados: telas à noite, cafeína e horário da medicação;
Sinais de outros quadros: ronco, sonolência excessiva durante o dia, humor deprimido e ansiedade.
Se aparecer algum desses sinais, o caminho é encaminhar para avaliação médica ou de um especialista em sono.
Como orientar o paciente com TDAH a começar o dia?
Se iniciar tarefas exige muito das funções executivas, a orientação pode se concentrar em diminuir o custo de começar:
Deixar a roupa e o café da manhã organizados na véspera;
Definir uma primeira ação simples e concreta;
Escolher algo agradável e previsível para acompanhar esse começo;
Evitar o celular como primeira ação do dia, porque ele abre muitas portas de distração justamente quando a pessoa tenta se organizar.
O papel do profissional é filtrar o que tem base e adaptar ao caso.
E talvez o ponto mais importante seja a psicoeducação. Quando o paciente entende que a dificuldade tem relação com o funcionamento dele, e não com falta de caráter, a culpa diminui. Com menos culpa, fica mais fácil construir mudanças possíveis.
Conclusão
A dificuldade de começar o dia pode ser uma porta de entrada para entender melhor o paciente com TDAH: o sono, o relógio biológico, as funções executivas e o impacto disso na autoestima.
Vale lembrar o limite: dificuldade para acordar, sozinha, não indica TDAH, e nem todo adulto com TDAH tem o relógio atrasado. Cada caso precisa ser investigado.