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Psicopedagogia / NeuropsicopedagogiaArtigo

O que é Hiperfoco? Entenda Como Ele Aparece no Autismo e no TDAH

Entenda o que é hiperfoco, se ele é exclusivo do autismo, o que a ciência explica sobre esse comportamento e como trabalhá-lo em sala de aula.

Uma criança com casaco verde com capuz com espinhos de dinossauro está deitada no chão, em frente a um brinquedo de dinossauro.

Você já teve um aluno que sabe tudo sobre um assunto só e não consegue parar de falar ou pensar naquilo? Esse comportamento é o que chamamos de hiperfoco no autismo e no TDAH, e existe ciência por trás dele.

Neste artigo, você vai entender se o hiperfoco é realmente exclusivo do Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que a ciência já sabe sobre esse comportamento e por que ele não é, necessariamente, um problema.

O que é hiperfoco?

O hiperfoco acontece quando uma pessoa concentra toda a sua atenção em um assunto, tarefa ou atividade específica, a ponto de parecer que desligou a mente de tudo ao redor. Alguns sinais comuns são:

  • Não ouvir quando chamam o nome;

  • Ignorar o sinal da escola;

  • Esquecer de comer ou ir ao banheiro;

  • Responder com precisão impressionante sobre o tema de interesse, mesmo diante de adultos.

Hiperfoco é exclusivo do autismo?

Existe uma crença comum de que o hiperfoco é uma característica exclusiva do autismo — mas não é bem assim. Ele pode aparecer em diferentes contextos:

  • No TEA: é considerado parte do próprio diagnóstico, junto com os interesses restritos e específicos já conhecidos;

  • No TDAH: também é frequente, embora possa parecer contraditório — a dificuldade não está na capacidade de focar, mas na capacidade de escolher onde colocar esse foco e de mudar de uma atividade para outra com facilidade;

  • Em outros quadros, como o transtorno bipolar;

  • Na população em geral: em menor intensidade, todo mundo apresenta um pouco de hiperfoco em algum momento da vida, já que todos temos assuntos que nos interessam mais do que outros.

A diferença é que, em crianças com TEA ou TDAH, esse hiperfoco costuma ser muito mais intenso, mais frequente e mais difícil de interromper.

Por que esse interesse se torna tão intenso?

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Montreal, no Canadá, liderados por Laurent Mottron, e publicado na Revista de Autismo e Transtornos do Desenvolvimento, propõe um modelo chamado Funcionamento Perceptual Intensificado (do inglês Enhanced Perceptual Functioning) para explicar esse comportamento (MOTTRON et al., 2006).

Segundo os pesquisadores, o cérebro de uma pessoa com TEA processa informações visuais e sonoras de um jeito diferente:

  • Foca mais no detalhe específico do que na visão geral da situação;

  • Percebe pequenos detalhes com mais precisão e rapidez do que um cérebro neurotípico;

  • Apresenta uma discriminação sensorial mais apurada, conseguindo diferenciar pequenas variações dentro de um mesmo tema com muito mais facilidade.

Na prática, isso significa que, quando uma criança com TEA encontra um assunto que desperta seu interesse, essa percepção mais apurada faz com que ela note detalhes, padrões e informações que outras pessoas passariam direto — o que torna a experiência de explorar aquele assunto muito mais rica e envolvente.

Não é que a criança escolhe "prender" a atenção naquilo de propósito: é que o jeito como o cérebro dela processa aquela informação já torna a experiência mais intensa desde o início.

Hiperfoco é bom ou ruim?

A resposta depende do contexto. Um estudo publicado em 2024 na revista Neurodiversidade, da editora SAGE, no Reino Unido, conduzido por Patrick Dwyer e colaboradores, ouviu quase 500 adultos — entre autistas, pessoas com TDAH, pessoas com os dois diagnósticos e um grupo de comparação (DWYER et al., 2024).

O resultado confirma a ideia de uma "espada de dois gumes":

Lado positivo:

  • Funciona como ferramenta poderosa de aprendizagem;

  • Ajuda a criança a se acalmar em momentos de crise ou estresse, já que o assunto traz segurança e previsibilidade;

  • Está ligado a mais produtividade e criatividade.

Lado que exige atenção:

  • Pode tirar a criança de outras áreas importantes da vida, como comer, dormir ou interagir com outras crianças;

  • Pode levar à recusa de qualquer atividade que não seja aquele interesse específico;

  • Esteve ligado, no mesmo estudo, a mais ansiedade, sintomas de depressão e pensamentos repetitivos negativos quando não era bem acompanhado.

Algumas perguntas simples ajudam a identificar quando o hiperfoco virou um problema:

  • Isso está deixando a criança infeliz quando precisa parar?

  • Isso está gerando conflito com outras pessoas?

  • Isso está limitando a capacidade dela de aprender coisas novas?

Como trabalhar o hiperfoco na prática em sala de aula?

Um erro comum entre pais e professores é tentar proibir ou esconder o interesse da criança — tirar o brinquedo, esconder o material, proibir de falar sobre o assunto. Essa estratégia não resolve a situação; pelo contrário, só piora, porque a privação alimenta a obsessão.

Um estudo de 2025, conduzido pela pesquisadora Débora Pereira dos Santos, acompanhou crianças autistas durante um ano em intervenções de psicomotricidade e chegou a uma conclusão importante: quando o hiperfoco é respeitado e direcionado estrategicamente, em vez de combatido, ele facilita o engajamento, dá segurança emocional para a criança e ajuda na construção de novas habilidades (SANTOS, 2025).

Na prática, isso significa usar o interesse da criança como ponto de partida, e não como inimigo:

  • Fazer as transições para novas atividades de forma gradual, respeitando o tempo de cada criança;

  • Estabelecer limites com carinho, definindo alarmes ou sinais claros de quando uma atividade vai terminar;

  • Celebrar quando a criança consegue fazer essa transição;

  • Usar o próprio interesse do aluno como ponte para ensinar outras disciplinas — envolvendo o tema que ele ama nas atividades de alfabetização, matemática ou geografia.

Conclusão

Entender o hiperfoco não é só uma questão técnica, é uma questão de inclusão de verdade. Incluir não é apenas colocar o aluno dentro da sala de aula: é olhar para como ele funciona, respeitar esse funcionamento e encontrar caminhos que façam sentido para ele.

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