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Alfabetização e AEEArtigo

Inclusão na Educação Infantil: o que um pequeno gesto pode fazer

Conheça a história da professora Brena Carla e como o papelão e pequenos gestos transformam a inclusão na educação infantil.

Imagem de capa do artigo sobre Alfabetização e AEE

Ao se mudar do interior para a capital, a pedagoga Brena Carla chegou a pensar em abandonar a profissão. Hoje, depois de 19 anos dedicados à Educação Infantil, ela é Criadora Rhema e mostra como materiais simples, como o papelão, e pequenos gestos do professor fazem diferença na inclusão na educação infantil.

Convidada para participar do Congresso de Dificuldades de Aprendizagem e Desenvolvimento Neuropsicomotor, promovido pela Rhema Neuroeducação, Brena compartilhou sua trajetória, explicou por que trocou o EVA pelo papelão e contou histórias de alunos que mudaram o olhar dela sobre o que é incluir.

Assista ao vídeo abaixo e confira a entrevista completa.

Quem é Brena Carla?

Brena é pedagoga com Licenciatura Plena e Pós-graduação em Educação Infantil pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Atua há 19 anos na rede municipal de Porto Velho (RO) e tem 16 anos de experiência como Supervisora Escolar na rede estadual. Hoje, leciona em uma turma do Pré-II, onde constrói um ambiente de acolhimento para crianças com TEA, TDAH e Altas Habilidades/Superdotação.

Rhema Neuroeducação: Você sempre quis ser professora?

Brena Carla: Eu venho de uma família lotada de professores. Minha mãe fez Magistério, minhas tias foram professoras até se aposentar, e hoje minhas primas são gestoras e professoras em escolas públicas e particulares. Quando tem festa em casa, é difícil não tocar no assunto sala de aula. Isso influencia. Meu marido também: ele era alfaiate, depois trabalhou como agente de limpeza na escola, fez Pedagogia, passou no concurso e acabou sendo diretor da escola onde eu trabalhava. Por sete anos, ele foi meu chefe.

Rhema Neuroeducação: E sempre foi a Educação Infantil?

Brena Carla: Sempre. Em 19 anos, nunca saí dessa etapa. É com os pequenos que eu me sinto realizada. Nunca gostei de trabalhar com o Ensino Fundamental.

Como começou a criar conteúdo?

A virada começou em um momento de desânimo, quando a mudança para a capital trouxe um choque profissional.

Rhema Neuroeducação: Como surgiu a ideia de gravar vídeos mostrando o seu trabalho?

Brena Carla: Eu passei a maior parte desses 19 anos em uma cidade pequena, numa escola pequena. Quando vim para a capital, senti um choque e me vi muito só na minha docência. Olhava para os colegas ao redor e não via referência. Aquilo me deu uma tristeza enorme, a ponto de eu pensar que não queria mais estudar nem continuar na área. Foi quando comecei a ver o conteúdo de outras professoras e me inspirei. Pensei: eu já faço algo parecido, vou mostrar. Criar conteúdo foi libertador para mim.

Por que trocar o EVA pelo papelão?

O primeiro vídeo de Brena a ganhar grande alcance foi justamente sobre essa escolha. Em menos de um mês, ela passou de cerca de 2 mil para 10 mil seguidores.

Rhema Neuroeducação: O que está por trás da escolha pelo papelão?

Brena Carla: Primeiro, o ambiente neutro me trazia paz. Aquela poluição visual da sala não me agradava. Depois, fui pesquisar e entendi o porquê. Eu já fui a professora do EVA, a professora que imprimia coisas lindas para a sala, pagas do meu bolso. Só que era um material que a criança não podia tocar. Se rasgava, eu sofria. Com o papelão, ganhei liberdade: a criança pode manusear, riscar, rasgar, e se estragar é só substituir. Ainda tem a questão da sustentabilidade, porque o EVA é um material poluente.

Rhema Neuroeducação: E os cuidados com higiene e contaminação?

Brena Carla: O cuidado é real. Eu faço uma escolha seletiva: papelão de supermercado, de alimentos molhados ou de carne, não pode. Prefiro o de eletrodoméstico, como geladeira e máquina de lavar. Borrifo álcool e deixo um tempo no sol. E é preciso ter atenção na hora de a criança se alimentar e na hora da higiene. Nos lugares onde o papelão é proibido, o papel kraft também funciona bem.

Quais são os desafios da inclusão na educação infantil?

Para Brena, um dos pontos mais sensíveis é a relação entre escola, famílias e o excesso de estímulos no dia a dia das crianças.

Rhema Neuroeducação: Qual é o papel da escola diante de crianças que chegam tão agitadas?

Brena Carla: Muita gente fala que a culpa é da tela, da falta de rotina em casa. Eu concordo que tudo isso existe. Mas dentro da sala de aula, quem decide as escolhas somos nós. Se o dia a dia da criança já é tão agitado, cabe à escola ser um espaço de acolhimento, que transmita calma e diminua a superexposição. A escola deveria fazer o caminho inverso. Não podemos ficar de braços cruzados esperando que a família tome uma atitude.

Rhema Neuroeducação: E como é o diálogo com as famílias?

Brena Carla: Na escola pública, as famílias nem sempre têm informação e, quando a escola chama, há muita resistência, porque ninguém quer ouvir que o filho tem alguma dificuldade. Mas é na Educação Infantil que conseguimos ter esse olhar. Nosso trabalho é de conscientização. Neste ano, todas as famílias que chamamos foram atrás de avaliação, e hoje há crianças com diagnóstico fechado e em acompanhamento. Eu me sinto realizada porque fiz o meu papel.

Quais resultados a inclusão trouxe para a turma?

Brena trabalha atualmente com seis crianças neurodivergentes, todas com diagnóstico de autismo e outras condições associadas.

Rhema Neuroeducação: Como a rotina visual ajuda essas crianças?

Brena Carla: Colocamos as próprias crianças nas fotos do quadro de rotina, priorizando as neurodivergentes, para que elas se vejam ali. Elas cobram a rotina, esperam por ela. Saber o que vai acontecer diminui muito a ansiedade e o processo de desregulação.

Rhema Neuroeducação: Você tem algum caso de evolução que marcou?

Brena Carla: Tenho um aluno que, no ano passado, dependia de adultos para quase tudo e falava muito pouco. Neste ano, passamos a tratá-lo como os outros, sem ficar o tempo todo conduzindo pela mão. Oferecemos as mesmas propostas, com adaptações quando necessário. Ele começou a brincar com os colegas, a pedir água e a ir ao banheiro, a escrever o próprio nome, a entender os comandos das atividades e a participar do lanche com a turma. Toda vez que ele conseguia algo, eu comemorava com ele, e logo ele mesmo passou a buscar esse reconhecimento. Os dias de irritação também fazem parte: nesses dias, levamos o lanche para a sala e usamos o abafador de ruído.

Rhema Neuroeducação: E entre as crianças, como a relação evoluiu?

Brena Carla: Tenho um aluno que batia muito no começo do ano, usando isso como uma forma de comunicação, porque estava agoniado e não sabia como se expressar. Hoje ele não bate mais, reconhece o nome dos colegas e tem os preferidos. É o maior da sala e cuida de um coleguinha bem pequeno, que quase não fala. A gente achou que um salvou o outro.

O que um pequeno gesto pode significar para uma criança?

Entre todas as histórias, uma marcou Brena de forma especial.

Rhema Neuroeducação: Qual foi o momento que mais te emocionou?

Brena Carla: Eu tinha um aluno muito agitado e, durante um filme na sala, ninguém queria sentar perto dele. Eu sentei do lado dele, segurei a mão e fiz carinho na cabeça, mas a minha intenção era só acalmá-lo para os outros assistirem. Dias depois, ele me perguntou: "Você gosta de mim?". Eu respondi que sim e perguntei por que ele achava isso. Ele disse: "Porque naquele dia que ninguém queria sentar do meu lado, você foi lá e sentou." Eu queria chorar. Uma coisa pequena que a gente faz muda tudo para uma criança.

Rhema Neuroeducação: Que mensagem você deixa para os professores?

Brena Carla: Um professor meu dizia que um dia estaremos sós, mas que, se fizermos diferença na vida de um aluno, cumprimos a nossa missão. A gente às vezes acha que sabe tão pouco, e existem muitas pessoas querendo saber o que você domina. O trabalho é de formiguinha, mas ele transforma.

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