Rhema ao vivoCongresso: TEA, TDAH e Neurociência na Inclusão4 Ago

Autismo (TEA)Artigo

Aluno com TEA no Início do Ano: O Que Fazer?

O início do ano letivo pode ser um dos momentos mais delicados para o aluno com TEA. Enquanto a escola retoma conteúdos, metas e avaliações, muitas vezes esse aluno ainda está tentando algo muito mais básico: organizar o próprio corpo diante de tantas mudanças.

Logo, diante desse cenário, é comum surgirem agitação, resistência, choro, isolamento ou dificuldade para participar. No entanto, na maioria das vezes, o problema não está no conteúdo. Está na organização neurológica necessária para sustentar a aprendizagem.

Por isso, entender isso muda completamente a prática pedagógica. Confira!

Por que o início do ano é mais sensível para o aluno com TEA?

Aluno com TEA no inicio do ano o que fazer

Antes de tudo, precisamos reconhecer que qualquer criança passa por um período de adaptação. Contudo, o aluno com TEA geralmente necessita de maior previsibilidade para se sentir seguro.

Portanto, quando ele sai de um ambiente conhecido e entra em outro completamente novo, o sistema nervoso precisa trabalhar intensamente para se reorganizar. Além disso, se o corpo não entra em estado de segurança, três aspectos fundamentais são impactados:

  • A atenção não se sustenta
  • A memória não consolida
  • A aprendizagem não acontece

Um estudo brasileiro publicado na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, conduzido por Juliana Martins e Síglia Camargo, analisou a adaptação de crianças com TEA na pré-escola. Desse modo, antes da organização estruturada do ambiente, essas crianças permaneciam entre 97% e 100% do tempo fora das atividades.

Ou seja, não participavam. Entretanto, quando o ambiente passou a oferecer estrutura, rotina clara e estratégias adequadas, a participação aumentou significativamente.

Ou seja, isso revela algo essencial: o comportamento melhora quando o ambiente ajuda. Portanto, o início do ano não é o momento de pressionar desempenho. É o momento de organizar a base.

O que a neuropsicomotricidade explica sobre o comportamento do aluno com TEA?

Muitas vezes, a escola interpreta os sinais iniciais como “falta de interesse”. No entanto, a neuropsicomotricidade mostra outra perspectiva. Ou seja, comportamento não começa no comportamento, ele começa no corpo.

Atenção, permanência sentado, iniciar atividades, copiar do quadro e participar em grupo dependem de uma base corporal organizada. A terapeuta ocupacional Paula Serrano, referência na abordagem de Integração Sensorial de Jean Ayres, explica que a aprendizagem só acontece de forma consistente quando o sistema sensorial está organizado.

Desse modo, quando a criança apresenta dificuldade para processar sons, luz, movimento e informações do próprio corpo, isso impacta diretamente:

  • Atenção
  • Postura
  • Planejamento motor
  • Participação escolar

Logo, imagine o começo do ano: excesso de estímulos, barulho, mudanças constantes. Sendo assim, se o aluno com TEA já apresenta dificuldade na organização sensorial, essa sobrecarga aumenta. Consequentemente, aparecem por exemplo:

  • Agitação
  • Resistência para iniciar atividades
  • Dificuldade para permanecer sentado
  • Distração constante
  • Alterações no traçado da escrita

Ou seja, não é falta de vontade. É na verdade, a desorganização interferindo na base da aprendizagem.

Aluno com TEA no Início do Ano: O Que Fazer?

Por que insistir no conteúdo logo nas primeiras semanas pode dar errado?

Dessa forma, aqui entra uma explicação fundamental da neurociência. O psiquiatra infantil Bruce Perry afirma que o cérebro se organiza de forma sequencial: primeiro os sistemas ligados à regulação e à segurança, depois as áreas responsáveis por atenção, linguagem e raciocínio.

Portanto, se o aluno com TEA ainda está tentando se regular diante de um ambiente novo, ele terá dificuldade para acessar funções cognitivas mais complexas.

Se o corpo está em alerta:

  • A atenção não se sustenta
  • A memória não consolida
  • O conteúdo não fixa

Por isso, quando a escola cobra desempenho antes da organização da base, aumenta a frustração. E, como consequência, o comportamento pode se intensificar. Portanto, não se trata de reduzir expectativa. Trata-se de respeitar a sequência do desenvolvimento.

O que fazer nas primeiras semanas com o aluno com TEA?

Se a base precisa vir antes do conteúdo, então o foco inicial deve ser organização, previsibilidade e segurança. Veja estratégias práticas:

Organize a rotina de forma visual

Utilize sequência visual simples, cartões ou imagens. Dessa forma, quando o aluno sabe o que vai acontecer, a regulação melhora.

Alterne movimento com atividade de mesa

Inclua pequenos circuitos, atividades de empurrar, puxar ou carregar materiais. Sendo assim, movimento organizado ajuda a regular tônus e atenção.

Reduza estímulos excessivos

Observe ruídos, excesso de informações visuais e estímulos simultâneos.

Aumente a mediação no início

Modele o comportamento esperado. Ou seja, sente ao lado. Mostre como começar.

Observe antes de rotular

Nem toda dificuldade inicial é dificuldade acadêmica. Logo, muitas vezes, é apenas adaptação. Essas estratégias não facilitam o processo. Elas constroem a base necessária para que a aprendizagem aconteça.

Por que compreender o aluno com TEA exige formação específica?

Esse olhar não é intuitivo. A graduação ensina planejamento e conteúdo, mas raramente aprofunda a relação entre cérebro, corpo, movimento e aprendizagem.

Sem essa base, o professor tende a agir por tentativa e erro. Entretanto, quando compreende como a integração sensorial impacta a atenção e como a regulação antecede o conteúdo, sua prática muda completamente.

Ele:

  • Reduz rótulos
  • Organiza o ambiente com intenção
  • Observa com critério
  • Age com segurança

Especialmente no início do ano, esse conhecimento evita decisões precipitadas e registros inadequados sobre o aluno. Ou seja, inclusão real não acontece por improviso. Ocorre por conhecimento.

Conclusão: o início do ano define a trajetória do aluno com TEA

O começo do ano letivo não deve ser um período de pressão. Deve ser um período de construção de base. Logo, quando o aluno com TEA se sente seguro, organizado e compreendido, a participação aumenta naturalmente. E, consequentemente, a aprendizagem acontece.

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