A Turma que Desafiou o Método Fônico: alfabetização de imigrantes
Conheça a história do professor Val e como ele alfabetiza uma turma com alunos imigrantes, indígenas Warao e o desafio de três línguas diferentes.
Por Nayara Afonso28 de setembro de 20265 min de leitura
Alfabetizar já é um desafio. Agora imagine fazer isso numa turma onde metade dos alunos não fala português, outra parte fala espanhol mas nunca foi alfabetizada nessa língua, e ainda há estudantes da etnia indígena Warao, cujo idioma nem sequer tem forma escrita.
Foi esse o desafio que o professor Valdercley Santos, o Val, aceitou ao assumir uma turma de EJA (Educação de Jovens e Adultos) criada especialmente para atender pessoas em situação de migração em Roraima.
Convidado da Oficina de Neuropsicomotricidade e Dificuldades na Escrita da Criança, promovida pela Rhema Neuroeducação em 26 de setembro, Val compartilhou sua trajetória, explicou como adaptou o método fônico para uma sala multicultural e contou como a alfabetização virou, para seus alunos, uma ferramenta de sobrevivência no Brasil.
Assista ao vídeo abaixo e confira a entrevista completa.
Quem é Valdercley Santos (Val)?
Val é professor efetivo da Rede Municipal de Ensino, onde atua na Educação de Jovens e Adultos (EJA), e também professor auxiliar na Rede Estadual. Formado em Pedagogia, Letras (Português/Espanhol) e Educação Física, possui especializações em Alfabetização e Letramento e em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa.
Rhema Neuroeducação: Para quem ainda não te conhece, como começou sua trajetória na educação?
Valdercley Santos: Eu estou nessa caminhada já faz um tempinho, acho que uns nove anos no mercado. Comecei minha primeira graduação em Letras, com habilitação em língua portuguesa e espanhola. Depois fui para a Educação Física. E, por fim, fiz Pedagogia, que foi o que me levou a conseguir o êxito de ser servidor público efetivo.
Como surgiu o desafio de alfabetizar imigrantes e indígenas Warao?
O convite para essa turma especial não veio por acaso — veio de uma repercussão que começou nas redes sociais.
Rhema Neuroeducação: Como você foi parar numa turma tão diferente de tudo?
Valdercley Santos: Eu comecei a compartilhar minhas práticas de alfabetização na internet, e isso foi caindo no gosto do povo. Foi aí que a secretária de educação do município passou a me seguir, viu os vídeos e me chamou para compor uma equipe de formadores em rede. Depois de um ano nessa função, esse ano fui convidado pela secretaria a usar essa metodologia numa turma de EJA que o Ministério Público pediu para abrir — uma turma com cerca de 25 imigrantes que não falavam português, e ainda uma indicação da comunidade indígena Warao, que fala uma língua que não tem escrita. Perguntaram se eu achava que o método fônico dava certo ali. Eu falei: dá certo. E meti a cara e fui.
Alfabetização de alunos imigrantes: como funciona na prática?
Val descreve sua sala como um verdadeiro laboratório de alfabetização multicultural.
Rhema Neuroeducação: Como alfabetizar alguém que não fala português?
Valdercley Santos: Eu tenho três realidades linguísticas na mesma sala: o português, o espanhol — que muitos também não têm alfabetizado — e a língua indígena Warao. Eu sigo a proposta de fato do que é alfabetizar: primeiro desenvolver a consciência fonológica e fonêmica, para depois ir para a decodificação e a escrita. Uso a instrução fônica, transitando entre o espanhol e o português para trazer o aluno da língua Warao a pronunciar e consolidar aos poucos.
Um dos momentos que mais marcou Val foi ouvir de um aluno o motivo real por trás da vontade de aprender:
"Professor, eu estou aqui porque a gente quer trabalhar no Brasil. Se a gente não aprender português, a gente não consegue emprego."
Quais são os desafios dessa turma multicultural?
Nem todos os professores aceitam esse tipo de turma — e Val entende por quê.
Rhema Neuroeducação: Por que muitos professores acabam tendo dificuldade de ensinar turmas assim?
Valdercley Santos: Porque a comunicação é difícil, e muita gente não tem profissionais que queiram assumir. Além disso, existe um preconceito com o professor da EJA — tem aquela falácia de que é a "zona de conforto" do professor cansado. E lidar com uma sala de 55 alunos, com faixas etárias que vão de 15 a 67 anos, não é fácil. Eu costumo dizer que ando dois passos e volto quatro — é um ciclo. Mas eu não tenho coragem de mandar ninguém para casa. A escola tem que ser aberta, tem que cumprir o papel dela.
Quais resultados essa metodologia já trouxe?
Apesar da dificuldade, os primeiros resultados já aparecem — e não só na alfabetização em si.
Rhema Neuroeducação: Qual foi o momento em que você percebeu que estava funcionando?
Valdercley Santos: Quando comecei a ver eles escrevendo o próprio nome — muitos chegaram sem nenhuma habilidade de escrita. E o mais incrível é que os pais avançaram no português mais rápido que alguns filhos, porque a necessidade de conseguir emprego é maior. Isso me mostrou que a estratégia estava funcionando. Hoje esses alunos também têm contato com tecnologia em sala, um projeto que estou desenvolvendo, e a experiência toda virou material de estudo — pretendo apresentar no Conedu, o Congresso Nacional de Educação, e atualmente estou na segunda etapa de um processo seletivo de mestrado em Currículo.
Fora da sala de aula, Val também leva essa experiência a outros professores, em rodas de conversa e formações a convite de gestores de outras escolas — mostrando, na prática, como alfabetizar um aluno migrante mesmo sem falar espanhol.
O que essa experiência ensina sobre acolhimento na educação?
Para Val, alfabetizar é inseparável de acolher.
Rhema Neuroeducação: Depois de tudo que você viveu, o que você diria para um professor que está cansado e pensando em desistir?
Valdercley Santos: Eu sei que a caminhada é difícil, o fardo é pesado. Mas no fim do ciclo, a gente sempre vai contemplar algumas lindezas — ver aquele aluno dizer "professor, obrigado, eu aprendi a ler". A educação é transformadora, o conhecimento é libertador. Então eu só posso dizer: gente, não desistam. É difícil, sim, mas imagina um mundo sem professor. O pouco que eu sei oferecer é isso: acolhimento, abraço, uma rodada de café. É uma missão.
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