Criança com TDAH pode usar celular? Veja o que as pesquisas dizem sobre TDAH e celular, os riscos do excesso de telas e como equilibrar o uso.
Por Nayara Afonso20 de janeiro de 20245 min de leitura
A relação entre TDAH e celular é uma das dúvidas mais frequentes entre pais e professores de crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Afinal, criança com TDAH pode usar celular? E por quanto tempo?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que ocorre em 3 a 5% das crianças, em diferentes regiões do mundo, segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). Ele tem forte influência genética e, em mais da metade dos casos, acompanha a pessoa até a vida adulta. Por isso, exige acompanhamento profissional contínuo.
Crianças com TDAH aprendem de um jeito diferente e costumam precisar de estratégias individualizadas na escola e em casa. Nesse contexto, alguns hábitos do dia a dia podem aumentar a sobrecarga de estímulos e intensificar os sintomas. Seria o uso do celular um deles?
Neste artigo, você vai entender o que as pesquisas dizem sobre TDAH e tempo de tela, quais são os riscos do uso excessivo e como equilibrar o celular na rotina da criança. Continue a leitura!
Quais são os sintomas do TDAH?
O TDAH se manifesta, principalmente, por três grupos de sintomas: desatenção, hiperatividade e impulsividade. Eles podem aparecer juntos ou com predomínio de um deles.
Desatenção: dificuldade de manter o foco, perda frequente de materiais, esquecimento de instruções e tarefas deixadas pela metade;
Hiperatividade: inquietação constante, dificuldade de permanecer sentado e necessidade de estar sempre em movimento;
Impulsividade: agir sem pensar nas consequências, interromper os outros e ter dificuldade de esperar a vez.
No dia a dia, esses sintomas podem trazer impactos como:
dificuldades para se relacionar com colegas e adultos;
comportamentos desafiadores;
dificuldades na aprendizagem;
dificuldade em seguir regras e respeitar limites.
Na sala de aula, por exemplo, o aluno pode começar uma atividade, levantar-se várias vezes, abandonar a tarefa antes de concluí-la e precisar que o professor retome as instruções a todo momento.
O que as pesquisas dizem sobre TDAH e tempo de tela?
Pesquisas recentes reforçam a preocupação de pais e professores. A revisão de escopo "A relação entre TDAH e o tempo de tela na infância", analisou 20 estudos das bases PubMed, MedLine, LILACS e SciELO. Os autores identificaram uma tendência consistente: quanto maior o tempo de tela, mais intensos os sintomas de TDAH em crianças. Fatores como a qualidade do sono e o nível de atividade física também influenciam essa relação.
Outra revisão, feita por 15 autores, analisou artigos publicados entre 2018 e 2024 e chegou a conclusões semelhantes. Segundo as autoras, a exposição precoce e prolongada às telas está associada a impulsividade, déficit de atenção, alterações no sono e atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor.
Vale destacar que nem todos os estudos estabelecem uma relação de causa e efeito. Em outras palavras, as telas não causam o TDAH. No entanto, a literatura indica que o uso sem controle é um fator de risco importante para o agravamento dos sintomas em crianças que já têm o transtorno.
Quais os riscos do uso excessivo de celular para a criança com TDAH?
Entre os principais riscos observados nesses estudos, estão:
Aumento da distração e da hiperatividade: o excesso de estímulos, notificações e trocas rápidas de conteúdo pode deixar a criança mais agitada e com mais dificuldade de sustentar a atenção em atividades que exigem esforço, como a leitura;
Prejuízo ao sono: o uso de telas, principalmente à noite, pode atrasar e piorar o sono, o que tende a intensificar a desatenção e a irritabilidade no dia seguinte;
Diminuição da interação social: o uso constante do celular pode levar ao isolamento e dificultar ainda mais a convivência com colegas e familiares;
Menos tempo para outros estímulos: as horas em frente à tela ocupam o espaço de brincadeiras, atividades físicas e experiências criativas, fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e motor.
Então, criança com TDAH pode usar celular?
Sim, desde que com limites, supervisão e propósito. O problema não está no celular em si, mas no uso excessivo e sem acompanhamento.
A tecnologia pode, inclusive, ser uma aliada. Um estudo publicado em 2021 na revista Clinical and Biomedical Research, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA/UFRGS), descreve o TDAH Hackathon, iniciativa que desenvolveu um aplicativo para ajudar pacientes com TDAH na adesão ao tratamento. Iniciativas como essa mostram que, quando bem orientado, o dispositivo pode apoiar a rotina em vez de prejudicá-la.
Como equilibrar o uso do celular na rotina da criança com TDAH?
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda limites de tempo de tela por faixa etária, sempre com a supervisão de um adulto:
menores de 2 anos: nenhum contato com telas;
de 2 a 5 anos: até 1 hora por dia;
de 6 a 10 anos: de 1 a 2 horas por dia;
de 11 a 18 anos: de 2 a 3 horas por dia.
Além de respeitar esses limites, algumas atitudes ajudam a tornar o uso mais equilibrado:
Combinar horários fixos: a previsibilidade ajuda a criança com TDAH a aceitar melhor os limites;
Evitar telas antes de dormir e durante as refeições: dessa forma, o sono e os momentos em família ficam protegidos;
Priorizar conteúdos com propósito: jogos educativos, aplicativos de rotina e vídeos escolhidos em conjunto são melhores do que a rolagem sem fim;
Oferecer alternativas: brincadeiras ao ar livre, esportes e atividades manuais ajudam a canalizar a energia e estimulam o desenvolvimento;
Alinhar casa, escola e equipe de saúde: quando família, professores e profissionais que acompanham a criança seguem as mesmas combinações, a rotina fica mais consistente.
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